Esta Unidade egípcia escapou da destruição em 1967 invadindo Israel

Por Christopher Weeks traduzido e adaptado por Sagran Carvalho.

Quando se é confrontado com um ataque de forças superiores, às vezes a chave para a sobrevivência reside em um movimento inesperado ou em permanecer fora da vista. Mas a sobrevivência dessa única unidade pode ser irrelevante quando o resto do seu exército é destruído. Tal exemplo ocorreu em junho de 1967, quando Israel quase destruiu totalmente o exército egípcio na Península do Sinai. Com habilidade e sorte, um dos melhores generais do Egito salvou sua força – e até conseguiu atravessar Israel por vários dias – mas não conseguiu mudar os rumos da batalha.

A guerra começou quando as tensões entre Israel e a Síria, aliada do Egito na primavera de 1967 cresceram, levando os egípcios ao conflito. O Egito transferiu grande parte do seu exército para a Península do Sinai para enfrentar as forças de Israel: 100 mil soldados, 950 tanques e 1100 veículos blindados de transporte de pessoal.

Como em guerras anteriores, os egípcios superavam em número os israelenses, sendo que na qualidade do equipamento havia um equilíbrio frente ao exército de Israel, com estes levando clara vantagem em treinamento e liderança. Ambos os lados conheciam o campo de batalha intimamente.

Uma das unidades egípcias no Sinai era um grupo de tanques e comandos de tamanho de divisão comandado pelo major-general Saad el-Shazly. Shazly era um general de 45 anos,  oficial corajoso, que havia treinado na América e fundado a força  pára-quedista do Egito.

Sua força-tarefa, formada a apenas três semanas, era composta por uma brigada blindada, com 150 tanques T-55, dois batalhões de comandos e alguma infantaria e artilharia, talvez 7500 homens. Suas unidades eram competentes, mas tinham pouca experiência trabalhando juntas.

Baseado no centro do Sinai, perto da fronteira israelense, mas relativamente longe de outras unidades egípcias e israelenses, seria uma unidade de reserva ou exploração no caso de um ataque egípcio.

A guerra começou com um dos ataques preventivos mais famosos da história. Os ataques aéreos israelenses no início de 5 de junho destruíram a maior parte da Força Aérea egípcia enquanto ainda estava no chão, e então os  tanques israelenses varreram a fronteira. A guerra era travada ao longo do anoitecer.

Mas Shazly e sua força-tarefa desconheciam o início das hostilidades. Shazly  voltava de uma reunião a 70 milhas de distância quando a guerra começou, informou ele a um jornalista britânico.

Em outros lugares do Sinai, ocorriam batalhas ferozes, com os tanques israelenses atacando os  defensores egípcios, e durante a ação surpreendentemente, os israelenses ignoraram ou não conseguiram detectar a unidade de Shazly.

Na tarde seguinte, o comando no Cairo ordenou uma retirada do Sinai. As ordens foram feitas para que todas as unidades imediatamente regressassem sem maiores detalhes ou tempo para se preparar, o que desencadeou uma corrida sem controle de volta ao Canal de Suez. Muitas tropas abandonaram seus veículos e equipamentos enquanto se precipitavam para o oeste em segurança. Os soldados  voltavam através do Passe Mitla, um estrangulamento natural que se tornou uma estrada de pesadelo e morte para os egípcios, quando jatos e tanques israelenses os atacavam.

Shazly nunca recebeu as ordens de retirada, afirmou. Os tanques israelenses empurravam a linha de frente  e rapidamente seguiam em frente. Sem israelenses nas proximidades, e a única saída de retorno fechada por trás,  Shazly ordenou que sua força avançasse para Israel.

Os tanques e os comandos avançaram cautelosamente, mas rapidamente para o deserto, atravessando Israel sem resistência. Lá, em um vale raso em forma de L, eles se abrigaram e acabaram esquecidos pelos dois lados.

“Houve algumas escaramuças a longa distância, mas durante esse período não estivemos em uma guerra”, lembrou Shazly. Ele provavelmente sabia que sua unidade tinha poucas chances de se retirar sozinha em desertos acidentados e através das linhas israelenses. Por isto a opção pela cautela.

Dois dias depois, na noite de 7 de junho, o comando do exército, do Cairo entrou em contato com ele. Atordoados por sua sobrevivência e por sua presença dentro do território de Israel, eles ordenaram que se retirasse imediatamente. Sua força era uma das poucas unidades que ainda sobreviviam ao desastre egípcio, e sua fuga e sobrevivência era essencial.

Shazly concordou com a retirada, mas esperou que a cobertura da escuridão seguir. Durante a noite, seus tanques e comandos moveram-se 60 milhas ao longo do campo, região selvagem do Sinai, através de estradas estranhamente vazias.

Quando o amanhecer chegou, aviões israelenses localizaram sua coluna e fizeram passes de baixa altura, lançando bombas, foguetes e fogo de canhão. Faltando armas antiaéreas especializadas, a coluna de Shazly disparou sobre os jatos israelenses com as únicas armas que tinham, metralhadoras e armas pequenas. Mais de 100 egípcios foram mortos, mas a coluna seguiu, e os israelenses partiram em busca de alvos mais fáceis.

A equipe de Shazly não tinha ideia de onde estavam os israelenses, e só por pura sorte conseguiram se esquivar dos tanques inimigos.

Alcançaram o Canal de Suez ao pôr-do-sol no dia 8 de junho, quase 24 horas após o início. A única ponte do canal ainda se encontrava em mãos egípcias. Com a Brigada  em grande parte intacta, os homens de Shazly atravessaram para o Egito continental e a segurança. Foi uma das últimas unidades a escapar do deserto do Sinai, e parecia ser a única que evitou qualquer combate real.

A versão de Shazly dos eventos é controversa para alguns historiadores ocidentais, que o acusam de permanecer imóvel antes de se retirar, ou mesmo abandonar seu comando. Os arquivos do Egito continuam sendo um segredo de estado, e a verdade pode nunca ser conhecida.

Supondo que sua história seja verdadeira,e a ousada opção de “recuar avançando” poupou seus homens. Isso também significava que ele foi um  dos poucos generais árabes a conquistar e manter-se em território em Israelense. Mas não contava com a catastrófica derrota egípcia.

Em apenas quatro dias, o exército egípcio perdeu 80 por cento de seus equipamentos, incluindo pelo menos 530 tanques. Em contraste, Israel perdeu apenas 61 tanques. O Sinai estava perdido; Israel triplicou o tamanho de seu território. Determinado a vingar a derrota, o Egito rearmou-se e preparou-se para retomar o Sinai.

Shazly poderia ter feito mais? Sua força poderia ter se movido mais para o Negev, talvez cortando a metade sul de Israel. Alternativamente, poderia ter permanecido no lugar enquanto os israelenses o ignoravam, tornando-se um espinho atrás das linhas israelenses. Ambas as situações teriam sido embaraçosas para Israel, mas não teriam mudado o resultado da guerra, e provavelmente garantiriam a destruição da sua força quando os tanques de Israel se virassem para eles.

Shazly era um dos poucos oficiais egípcios que sobreviveram à guerra com sua reputação intacta. Ele se  tornou Chefe de Estado-Maior das Forças Armadas e preparou os militares egípcios para sua maior conquista, o ataque surpresa de outubro de 1973 contra Israel. Mas seu temperamento conseguiu o levou ao choque com o presidente Anwar Sadat,  culpando-o pela derrota do Egito nessa guerra. Shazly foi declarado um traidor e fugiu do país, retornando apenas em 1992.

© 2017 por Christopher Weeks

Todas as fotos fornecidas pelo autor.

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Matéria publicada originalmente em W.H.O.

 

 

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