Berlim 1961 – O lugar mais perigoso do mundo.

Por Sagran Carvalho.

Soviet tanks facing U.S. tanks at the Berlin Crisis of 1961 [2048x1216]

Camaradas,

Mais um indicação de livro aqui no Café no Front!

Trata-se de “Berlim: 1961” de Frederick Kempe, que conta em detalhes a crise que se instalou entre Estados Unidos e União Soviética na cidade dividida de Berlim. Até aquele momento, sem dúvida alguma, foi o que mais próximos estivemos de um conflito armado entre as duas grandes super-potências nucleares de então.

Narra todo o jogo político desenvolvido entre Kruchóv e Kennedy, com participações de Adenauer, Ulbricht, Mao, De Gaulle em solucionar a maior crise diplomática da Guerra Fria, e que levou à construção do Muro de Berlim como forma de salvar a Alemanha Oriental e seu sistema stalinista de governo.

Vale muito a leitura, recomendo!

Deixo abaixo uma parte da introdução que mostra o quanto estivemos próximos de uma hecatombe nuclear em 1961…


 

O lugar mais perigoso do mundo

Quem possui Berlim possui a Alemanha, e quem controla a Alemanha controla a Europa.

Vladimir Lênin, citando Karl Marx
Berlim é o lugar mais perigoso do mundo. A União Soviética quer executar uma operação nesse ponto doloroso para eliminar esse espinho, essa úlcera […].

O premiê Nikita Khruschóv ao presidente
John F. Kennedy na Cúpula de Viena, 4 de junho de 1961.

CHECKPOINT CHARLIE, BERLIM
SEXTA-FEIRA, 27 DE OUTUBRO DE 1961, 21 HORAS
Não houvera, até então, momento mais perigoso na Guerra Fria.
Sem se deixar intimidar pela noite úmida e repleta de riscos, os berlinenses saíram pelas
ruas estreitas que conduziam ao Checkpoint Charlie. Na manhã seguinte, os jornais
calculariam seu número em cerca de quinhentos, uma pequena multidão, considerando que eles poderiam ter testemunhado os primeiros disparos de uma guerra termonuclear. Depois de seis dias de tensão crescente, tanques americanos M48 Patton e soviéticos T-54 encontravam-se frente a frente, a pequena distância uns dos outros — dez de cada lado, com mais umas duas dúzias de reserva nas proximidades.

Protegendo-se da garoa apenas com guarda-chuva, jaqueta e capuz, a multidão se
empurrava  para ter uma visão melhor da Friedrichstrasse, da Mauerstrasse e da
Zimmerstrasse, as três ruas cuja junção era a passagem básica entre leste e oeste para veículos militares e civis dos aliados e para pedestres. Algumas pessoas se postaram nos telhados. Outras, incluindo um grupo de fotógrafos e repórteres, debruçavam-se nas janelas de edifícios baixos ainda marcados pelos bombardeios da guerra.

Do local, o repórter da CBS News Daniel Schorr informou a seus ouvintes, com toda a
dramaticidade de sua imperiosa voz de barítono: “Esta noite, a Guerra Fria ganhou nova
dimensão, com soldados americanos e russos posicionados uns contra os outros pela primeira vez na história. Até agora, o conflito Leste-Oeste tinha se desenrolado através de terceiros — alemães e outros. Hoje, porém, as superpotências se confrontam na forma de dez tanques russos diante de tanques americanos Patton com menos de cem metros de distância entre eles”.

A situação era suficientemente tensa para que, quando um helicóptero do Exército
americano sobrevoou o campo de batalha, um policial da Alemanha Oriental gritasse, em pânico: “Abaixem-se”, e uma multidão obediente se lançasse ao chão, com o rosto por terra. Em outros momentos, reinava uma estranha calma.5 “A cena é fantástica, quase incrível”, Schorr descreveu. “Os soldados americanos estão em seus tanques, comendo sua ração. Atrás dos cordões de isolamento, os berlinenses ocidentais, boquiabertos, observam a cena iluminada por holofotes do lado oriental e compram biscoitos. Os tanques soviéticos estão praticamente invisíveis na escuridão do leste.”

Correram rumores de que a guerra era por Berlim. Es geht los um drei Uhr (“Vai começar
às três da manhã”). Uma emissora de rádio de Berlim Ocidental noticiou que o general
reformado Lucius Clay, novo representante especial do presidente Kennedy em Berlim, estava indo para a fronteira, no estilo de Hollywood, para conduzir pessoalmente os primeiros disparos. Segundo outra fonte, o comandante da Polícia Militar americana no Checkpoint Charlie esmurrara um colega da Alemanha Oriental e ambos os lados ansiavam por uma luta armada. Dizia-se ainda que todas as companhias soviéticas estavam marchando para Berlim a fim de acabar com a liberdade da cidade de uma vez por todas. Os berlinenses em geral adoravam um mexerico até nos piores momentos. Como a maioria dos presentes tinha passado por uma, se não por duas guerras mundiais, eles achavam que qualquer coisa podia acontecer.

Clay, que em 1948 comandara a ponte aérea que livrara Berlim Ocidental de um bloqueio
soviético de trezentos dias, dera início ao confronto uma semana antes por causa de uma
questão que a maioria de seus superiores em Washington não considerava grave o suficiente para provocar uma guerra. Ignorando normas estabelecidas pelas quatro potências, a Polícia de Fronteira da Alemanha Oriental passara a exigir que aliados civis mostrassem sua identidade para entrar no setor soviético de Berlim. Até então, bastavam as placas distintivas de seus veículos.

Convencido por sua experiência pessoal de que os soviéticos só respeitavam os direitos
dos ocidentais quando eram contestados em questões mínimas, Clay repudiara a medida e ordenara que escoltas armadas acompanhassem os veículos. Soldados portando fuzis com baioneta e seguidos de tanques americanos ladeavam os veículos que serpenteavam por entre as barreiras de concreto, dispostas em zigue-zague e pintadas de vermelho e branco.

A princípio, a firme atitude de Clay funcionou: os guardas da Alemanha Oriental recuaram. Logo, porém, Khruschóv ordenou aos soldados que aumentassem seu poder de fogo, igualando-o ao dos americanos, e se preparassem para uma escalada, se necessário. Num esforço curioso e, afinal, infrutífero de posteriormente negar tudo, o líder soviético mandou esconder os símbolos nacionais dos tanques e determinou que seus condutores usassem uniforme preto sem insígnias.

Naquela tarde, quando se dirigiram para o Checkpoint Charlie a fim de sustar a operação de Clay, os tanques soviéticos transformaram uma questão de menor importância com os alemães-orientais numa guerra de nervos entre as duas nações mais poderosas do mundo. Reunidos em seus centros de operação de emergência, em lados opostos de Berlim, comandantes americanos e soviéticos calculavam seus passos seguintes e ansiosamente aguardavam ordens do presidente John F. Kennedy e do premiê Nikita Khruschóv.

Enquanto os líderes deliberavam em Washington e Moscou, os ocupantes dos tanques
americanos, comandados pelo major Thomas Tyree, nervosamente avaliavam seus oponentes, postados no outro lado da mais famosa divisão leste-oeste. Apenas dois meses e meio antes, em 13 de agosto de 1961, numa dramática operação noturna, soldados e policiais da Alemanha Oriental, com o apoio dos soviéticos, haviam erguido as primeiras barreiras temporárias de arame farpado e postos de guarda ao longo da circunferência de 176 quilômetros em torno de Berlim Ocidental, para conter um êxodo de refugiados que ameaçara a existência do Estado comunista.

Depois, fortificaram a fronteira com blocos de concreto, argamassa, armadilhas para
tanques, torres de guarda e cães. O que o mundo logo conheceria como o Muro de Berlim foi descrito por Norman Gelb, correspondente local da Mutual Broadcasting Network, como “o remanejamento urbano mais extraordinário, mais pretensioso de todos os tempos […] que serpentava pela cidade como o pano de fundo de um pesadelo”. Jornalistas, fotógrafos, líderes políticos, espiões, generais e turistas correram para Berlim a fim de ver a metafórica Cortina de Ferro de Winston Churchill se materializar.

O que estava claro para todos era que a presença de tanques no Checkpoint Charlie não era nenhum exercício. Naquela manhã, Tyree fizera seus homens carregarem todas as armas e acoplarem aos tanques lâminas de escavadeira. Durante exercícios preparatórios para um momento como esse, treinara seus subordinados para entrarem pacificamente em Berlim Oriental pelo Checkpoint Charlie — o que os direitos das quatro potências permitiam — e voltarem passando por cima do muro que se erguia, desafiando os comunistas a reagirem.

A fim de se aquecer e acalmar os nervos, os condutores dos tanques americanos ligaram os motores, produzindo um rugido aterrador. Mas o pequeno contingente aliado de 12 mil homens, dos quais apenas 6500 eram americanos, não teria chance num conflito convencional com os cerca de 350 mil soldados soviéticos que se encontravam a uma pequena distância de Berlim. Os subordinados de Tyree sabiam que estavam muito perto de uma guerra total que poderia se transformar em um conflito nuclear antes que conseguissem dizer Auf Wiedersehen.

O correspondente da Reuters Adam Kellett-Long, que correra até o Checkpoint Charlie para enviar a primeira reportagem sobre o confronto, pensou, ao observar um soldado afro-americano ansioso que estava encarregado da metralhadora de um dos tanques: “Se a mão dele tremesse um pouco mais, aquela metralhadora poderia disparar, e ele daria início à Terceira Guerra Mundial”.

Por volta da meia-noite em Berlim, dezoito horas em Washington, os principais consultores de Segurança Nacional de Kennedy se encontraram na Casa Branca para uma reunião de emergência. O presidente estava cada vez mais preocupado, temendo que os acontecimentos fugissem ao controle. Justamente naquela semana, seus estrategistas nucleares haviam concluído detalhados planos de contingência para, se necessário, executar um ataque nuclear preventivo que devastaria a União Soviética e seu poderio militar. Kennedy ainda não aprovara os planos e andara bombardeando os especialistas com perguntas céticas. Mas os cenários fatalistas impressionaram o presidente quando ele se reuniu com McGeorge Bundy, consultor de Segurança Nacional, Dean Rusk, secretário de Estado, Robert McNamara, secretário de Defesa, o general Lyman Lemnitzer, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, e outros funcionários de alto escalão.

De lá, usando uma linha segura, telefonaram para Clay, que estava em sua sala, em Berlim Ocidental. Como lhe haviam dito que Bundy queria falar com ele, o general se surpreendeu ao ouvir a voz de Kennedy.

“Alô, senhor presidente”, quase gritou, silenciando abruptamente o burburinho atrás de si.
“Como estão as coisas por aí?”, Kennedy perguntou, numa voz que pretendia ser calma e
relaxada.
Estava tudo sob controle, Clay lhe assegurou. “Temos dez tanques no Checkpoint Charlie”, acrescentou. “Os russos também estão com dez tanques lá, de modo que estamos em pé de igualdade.”
Nesse momento, um subordinado entregou-lhe um papel.
“Senhor presidente, tenho de mudar meus números”, Clay falou. “Acabo de saber que os
russos estão com mais vinte tanques a caminho, o que lhes dá exatamente o total de tanques que temos em Berlim. Assim sendo, vamos mobilizar os outros vinte. Não se preocupe, senhor presidente. Eles empataram com a gente, tanque por tanque. O que, para mim, é uma evidência de que não pretendem fazer nada.”

O presidente também podia fazer as contas. Se os soviéticos aumentassem seus números,
Clay não teria condições de enfrentá-los. Kennedy observou o rosto ansioso de seus homens. E pôs os pés sobre a mesa, tentando transmitir serenidade a quem temia que as coisas estivessem fugindo ao controle.

“Tudo bem”, disse para Clay. “Não fique nervoso.”
“Senhor presidente, não estamos preocupados com nossos nervos”, o general respondeu,
com sua característica franqueza. “Estamos preocupados com os nervos do pessoal aí de
Washington.”

Apoie o Café no Front. Seja nosso Comandante com contribuições mensais a partir de R$ 1,00. Ajude-nos a divulgar a história militar. É só acessar o link abaixo para ser um do nossos Generais:

Apoio Café no Front

Curta Café no Front no Facebook.

apoia-se-03

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s