Bayern x Hitler, o clube que resistiu ao nazismo

Por Miguel Lourenço Pereira

Apesar da fama de clube frívolo, o Bayern Munchen tem um passado de resistência ao nazismo do qual poucos clubes alemães podem presumir. Nos anos 30 a instituição bávara resistiu às ordens de Adolf Hitler e esteve à beira da extinção por desafiar o regime nazi.

Frente aberta contra o regime de Hitler

É curiosos como há clubes como o Ajax Amsterdam que sempre possuíram uma aura de grandeza associada ao seu multiculturalismo e à sua resistência ao establishment. E outros, como sucedeu com o Bayern Munchen, que foram acusados vezes sem conta de serem clubes do regime, clubes acomodados e clubes sem personalidade. Ironicamente, durante a II Guerra Mundial o Ajax, um clube da comunidade judaica, colaborou com o regime nazi na denúncia de membros influentes da comunidade judaica local que acabaram em campos de concentração. Por outro lado, o Bayern Munchen, foi o único clube alemão que desafiou abertamente as diretrizes de Hitler. E pagou um elevado preço por resistir ao regime nazi.

Entre os anos 30 e anos 60, a maior equipe do futebol alemão perdeu tudo o que tinha ganho a custo. Passou largos anos nas divisões secundárias, sofreu o estigma social na Baviera e viu muitos dos seus dirigentes exilados para nunca mais voltar. Foi o preço por opor-se ao regime nazi e à sua politica de anti-semitismo.

O clube tinha começado a afirmar-se na elite do futebol germânico desde o final da década de 20 e em 1932 sagrou-se campeão nacional pela primeira vez na sua história. Não voltaria a vencer um título até o final dos anos 60.

A presidência Landauer

Em 1933 o regime de Adolf Hitler controla definitivamente o destino da Alemanha.

Uma das suas primeiras medidas passava por controlar todas as instituições esportivas e sociais. Originalmente o plano de Hitler era de suprimir todos os clubes e criar do zero instituições totalmente fiéis ao partido. Houve várias fusões entre clubes em cidades por todo o país e quanto às instituições mais influentes, o regime exigiu a demissão dos seus dirigentes e a substituição por homens afiliados à causa nazi. Pior era o caso dos clubes que empregavam membros da comunidade judaica. Bernhardt Rust, ministro da educação, promulgou em junho de 1933 uma legislação que expulsava qualquer membro da comunidade judaica de qualquer instituições estatal, desportiva ou educativa na Alemanha. Muitos dos clubes alemães já se tinham antecipado à medida, conhecedores da ideologia hitleriana. O Bayern Munchen recusou. Até o seu último dia o seu presidente, o judeu Kurt Landauer, homem por trás da gestão que levou ao primeiro título dos encarnados, manteve-se no posto com o apoio absoluto do restante da diretoria, dos jogadores e dos torcedores, muitos dos quais membros do partido.

Anos depois Landauer foi preso pela polícia política por resistência ao regime e acabou num campo de concentração que funcionaria como teste como teste ao que mais tarde viria transformar-se no Holocausto, Dachau. Em 1939 conseguiu escapar e refugoiu-se na Suíça onde manteve contato com os seus antigos companheiros em Munique.

A atitude do clube irritou profundamente os dirigentes nazistas.

O regime apoiou declaradamente o rival local, 1860 Munchen, e dotou-o de financiamento, campos de treino de primeiro nível e facilidades na gestão de licenças dos jogadores que tinham de cumprir serviço militar. Ao contrário, para os homens do Bayern tudo eram obstáculos e problemas para resolver e pouco a pouco o clube se transformava numa instituição marginal. Foi forçado a demitir alguns de seus melhores jogadores (judeus), e quando o regime aplicou uma legislação que obrigava os clubes a serem absolutamente amadores, instituições que tinham rumado ao conceito semi-profissional, como era o caso dos homens de Munique, tiveram de reformular o plantel de forma drástica.

Mesmo assim, o clube manteve-se fiel a seu presidente, anunciando nas suas publicações que Landauer era o dirigente de pleno direito do clube e que todas as regras impostas pelo partido eram apenas aceitas, não compartilhadas ideologicamente pelo clube. Em 1940, o clube foi até a Suíça disputar um amistoso. Landauer estava na arquibancada. Os jogadores aproximaram-se e aplaudiram-no durante largos minutos. No intervalo a Gestapo entrou no vestiário e amaeçou a todos os jogadores com bilhetes sem volta para campos de concentração se a atitude voltasse a se repetir. Na conservadora Baviera, onde muitos homens do regime ficaram depois da guerra terminar, como auxiliares da administração norte-americana, essa postura nunca foi esquecida e a popularidade do 1860 Munchen manteve-se em alta até os anos 60.

O clube mais filantrópico

Fiel aos seu princípio, o Bayern Munchen mandou publicar nos jornais locais uma notícia de congratulação aos exércitos Aliados no dia em que, finalmente, foi assinado o armistício da Alemanha. Dois anos depois Kurt Landauer voltou do exílio na Suíça e chegou a Munique para ser reeleito, por aclamação, presidente do Bayern. Cargo em que se manteve até 1951. Os problemas sociais mantiveram o clube longe da elite durante os dez anos seguintes.

Curiosamente foi um jovem que estava na formação do rival 1860 quem  permitiu um volte face histórico no princípio da década de 60. Franz Beckenbauer mudou a história e transformou-se numa das figuras que mais impulsionaram a vertente filantrópica do clube. desde os milhões oferecidos às vitimas do tsunami no sudeste asiático em 2004, apoio à escolas no Sri Lanka e, sobretudo, um apoio financeiro direto a muitos clubes alemães em dificuldades financeiras. do politizado St. Paulli ao rival direto Borússia Dortmund, sem esquecer, curiosidades da vida, o seu eterno vizinho, o 1860 Munchen.

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Publicado originalmente em Futebol Magazine

 

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