Operação Garibaldi – Mossad – A prisão de Adolf Eichmann

Por Sagran Carvalho.

Camaradas,

Publico abaixo um trecho do livro Mossad – Os Carrascos do Kindon de Eric Fratinni, que entre diversas ações do Mossad, relata o sucesso na prisão de Adolf Eichmann que se encontrava foragido na Argentina. O sucesso da Operação Garibaldi garantiu que o carrasco nazista fosse levado a julgamento em Israel.

Recomendo que comprem e leiam o livro.


A primeira pista recebida sobre o paradeiro de Adolf Eichmann foi por intermédio de Jules Lemoine, um antigo tripulante do iate Djeilan, propriedade da condessa Marguerite d’Andurain. Ela fazia parte da Operação Convento ou Corredor Vaticano.

Marguerite era filha de um juiz francês e se casara com o conde Pierre d’Andurain quando tinha apenas 17 anos de idade. Entre 1918 e 1925, foi recrutada pelo serviço secreto francês, o Deuxième Bureau. Em 1925, divorciou-se do marido e se casou com um xeique wahabita chamado Suleyman. Algumas fontes asseguram que Marguerite o envenenou e regressou à Síria. Ali voltaria a se casar com o conde Pierre d’Andurain. Dois meses depois da celebração do matrimônio, o nobre apareceu morto com dezessete punhaladas, sem que se descobrisse o autor, ou autores, do crime.

A mulher começou uma vida de luxo em cidades como Nice e Cairo, acompanhada de homens jovens. É durante a ocupação da França por tropas do Terceiro Reich que Marguerite começa a trabalhar para o Escritório Central de Segurança do Reich (Reichssicherheitshauptant, ou RSHA) e para seu temível chefe, Reinhard Heydrich. Também nessa mesma época estabelece estreitas relações com o serviço secreto do Vaticano, a Santa Aliança, por intermédio do bispo austríaco Alois Hudal, figura-chave na organização Odessa.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, o religioso austríaco contatou D’Andurain para que se unisse à Operação Convento ou Corredor Vaticano. Esta, proprietária de um luxuoso iate, o Djeilan, navegava constantemente de Gibraltar à cidade de Tânger. Nessas travessias, Marguerite d’Andurain ajudava figuras importantes do nazismo a fugirem através do Marrocos. Franz Stangl, comandante do campo de concentração de Treblinka; Erich Priebke, do alto comando da Gestapo na Itália; e Reinhard Kops, responsável pela deportação e pelo extermínio dos judeus da Albânia, foram alguns dos nazistas que D’Andurain ajudou a escapar.

Contudo, talvez o mais importante superior hierárquico nazista que a francesa ajudou a fugir no Djeilan foi Adolf Eichmann, um dos maiores responsáveis pela logística da Solução Final à questão judaica.

Jules Lemoine sabia de todas as viagens e passageiros que tinham partido do Djeilan rumo à liberdade e para fora do alcance da justiça aliada do pós-guerra. Este informou que um “certo nazista importante” estava à espera na Cidade do Vaticano para obter o salvo-conduto de refugiado para a Argentina com o nome de Ricardo Clemente. Um agente de espionagem militar norte-americano disse que o marinheiro estava certo de que esse não era seu nome verdadeiro, e “que ele estava à espera dos documentos emitidos pelo Vaticano e que por essa razão não tinham levado muito a sério a informação dada pelo antigo marinheiro do Djeilan”.

Só depois de passados alguns anos é que a espionagem israelense soube da existência de uma unidade especial pró-nazismo dentro do Estado do Vaticano que se dedicava a ajudar na fuga de pessoas do alto comando do Terceiro Reich até a América do Sul. Segundo o Mossad, a Santa Aliança, serviço de espionagem do Vaticano, tinha muito a ver com aquilo.

A Operação Convento, desenvolvida pelo Vaticano desde os finais dos anos 1940 até princípios da década de 1950, consistia em tirar ex-dirigentes nazistas da Europa e colocá-los sob o manto protetor dos ditadores latino-americanos da época.

O problema surgiu devido ao nome usado por Eichmann e revelado por Jules Lemoine: Ricardo Clemente. Ele não aparecia em nenhum relatório da espionagem israelense.

Na verdade, o nome havia sofrido uma tradução. O verdadeiro nome usado por Adolf Eichmann em sua fuga foi Ricardo Klement. O salvo-conduto entregue pelo Vaticano identificava o superior hierárquico nazista como mecânico nascido em Bolzano, Itália, de pais alemães. Só anos depois o Mossad soube que Ricardo Klement e Ricardo Clemente eram a mesma pessoa: Adolf Eichmann.

Seria realmente um alto funcionário do governo alemão quem forneceria ao Mossad a localização de Eichmann. Foi o doutor Fritz Bauer, chefe fiscal da província de Essen, quem havia obtido a informação do paradeiro de Eichmann pelos serviços secretos alemães. Seus agentes tinham interrogado dois membros da rede Odessa, que revelaram as rotas de fuga utilizadas, a procedência dos fundos para cobrir os gastos e esconderijos dos criminosos de guerra.

Bauer, de origem judaica, fora juiz em Stuttgart até a chegada ao poder do Partido Nazista. Pouco depois, foi detido e condenado à prisão sob a acusação de “inimigo do Estado”. Conseguiu fugir e se refugiar na Dinamarca até a ocupação do país, em 1940. Novamente detido e condenado a três anos de prisão, conseguiu fugir e se refugiar na Suécia até o final da guerra. Fritz Bauer passou a informação ao doutor Shinar, chefe da Missão de Reparações de Guerra na Alemanha Ocidental. Shinar, por sua vez, informou Walter Eytan, diretor-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel.

Numa manhã de 1957, Eytan pegou o telefone para falar com Isser Harel, o todopoderoso diretor do Mossad.

— Localizamos Adolf Eichmann na Argentina — disse ele.

Harel desligou e logo em seguida telefonou para Rafi Eitan.

Nascido em 1929, Eitan havia se convertido numa espécie de herói lendário entre os membros do exército israelense pela sua experiência em combate durante a Guerra da Independência. A unidade que comandava, a Harel, abriu caminho para Jerusalém. Comandante de uma unidade de paraquedistas, foi recrutado pelo Mossad no final dos anos 1950 para realizar operações especiais.

Harel deu ordens a Eitan para que organizasse uma unidade especial dentro do Mossad, que seria chamada de Nokmin, ou Vingadores. Ele tinha como tarefa localizar, raptar e transferir Adolf Eichmann para Israel, para que fosse levado a julgamento. Esta seria realmente a origem da Metsada, a unidade de operações especiais do Mossad.

Isser Harel assegurou a Eitan que os homens que formariam a unidade deveriam saber que realizariam um ato de justiça divina para Israel. “Não só colocará nas primeiras páginas de todos os jornais o que os nazistas fizeram com os judeus nos campos de concentração como também colocará o Mossad à frente de todas as agências de espionagem do mundo.”

Desse modo, a unidade só poderia atuar assim que o primeiro-ministro David Ben-Gurion desse sinal verde à operação. “Só o velho poderá ativar e desativar a unidade”, afirmou Isser Harel de modo contundente. Durante dois anos, Rafi Eitan aguardou o chamado para a ação. Os homens escolhidos para executar o sequestro, liderados por Peter Malkin esperavam também por ordens.

Ninguém em Tel Aviv queria dar um passo em falso que pusesse em perigo não só a segurança dos agentes do Mossad, que já estavam na Argentina, mas também a própria imagem do Estado de Israel no mundo. Se as autoridades policiais argentinas descobrissem agentes do Mossad ou operações do Nokmin no país, poderia significar um sério problema para o governo trabalhista de Ben-Gurion.

Eitan pôs-se a ler um amplo dossiê enviado pela Unidade 8513, encarregada de colher informações fotográficas do alvo. O líder do Nokmin passava as páginas de uma pasta marrom-escura com uma fotografia de Eichmann vestido com um uniforme da SS. Várias fotografias de cor rosada e amarelada misturavam-se na volumosa pasta.

SS-OBERSTURMBANNFÜHRER Karl Adolf Eichmann (1906-1962), chefe do Departamento para Assuntos Judaicos da Gestapo, de 1941 a 1945, e chefe de operações na deportação de 3 milhões de judeus para os campos de extermínio. Uniu-se ao Partido Nazista austríaco em 1932 e algum tempo depois à SS. Em 1934, Eichmann serviu como cabo da SS no campo de concentração de Dachau. No mesmo ano, une-se ao SD e atrai a atenção de Heinrich Himmler e Reinhard Heydrich. Até 1935, Eichmann trabalhava na seção judaica, onde investigava as possíveis “soluções para a questão judaica”. Eichmann foi enviado para a Palestina a fim de discutir a viabilidade da imigração em grande escala para o Oriente Médio. As autoridades britânicas expulsaram-no dali ao descobrirem o motivo de sua visita. Em março de 1938, Eichmann foi enviado novamente a Viena para promover a emigração judaica. Estabeleceu o chamado Zentralstelle für jüdische Auswanderung (Centro de Emigração Judaica). Abriram escritórios em Praga e Berlim. Em 1939, Eichmann regressou a Berlim, onde assumiu a direção da Seção IV B4, assuntos judaicos e evacuação, no Escritório Central de Segurança do Reich. Seria ele mesmo o organizador da Conferência de Wannsee, em janeiro de 1942, cujo ponto mais importante do tratado foi a chamada “Solução Final” à questão judaica. Com o fim da guerra, Eichmann foi detido pelos norteamericanos e confinado a um campo de prisioneiros. Pouco depois, conseguiu escapar sem ser reconhecido. Com a ajuda dos serviços secretos do Vaticano, conseguiu fugir para a Argentina e viver durante dez anos com nome falso.

Eitan deixou o relatório sobre a mesa. Ali estava exposta a vida do homem que levara ao extermínio milhões de judeus por toda a Europa. Sem dúvida que haveria de localizá-lo, e essa seria sua principal tarefa a partir daquele exato momento. O criminoso de guerra nazista chegara a Buenos Aires no final do verão de 1950. Seu documento de identidade foi expedido pela polícia argentina em 3 de agosto daquele ano. Eichmann levava uma vida simples, procurando não se tornar muito popular e desconfiando o tempo todo de qualquer estrangeiro que entrasse em seu fechado círculo de amizades.

Em 1952, muda-se para San Miguel de Tucumán e decide mudar também de profissão. Lá, aparece como cartógrafo. Essa mudança foi o que levantou as suspeitas da polícia argentina. Os serviços de inteligência descobriram que por trás da identidade de Ricardo Klement estava Adolf Eichmann. Apesar de o segredo ser conhecido por alguns poucos, decidiram colocar Eichmann sob contínua vigilância, algo que complicaria as coisas para a equipe do Mossad e da Metsada.

O primeiro-ministro de Israel desejava do Mossad uma confirmação absoluta de que Ricardo Klement e Adolf Eichmann eram a mesma pessoa. Quando David Ben- Gurion aprovasse e autorizasse o sequestro de Eichmann, Isser Harel devia se assegurar, sem sombra de dúvida, de que aquele homem que vivia num bairro operário, nos subúrbios de Buenos Aires, era de fato o antigo Obersturmbannführer Adolf Eichmann. Ben-Gurion não aceitaria nenhuma dúvida a esse respeito.

Eitan ordenou a Malkin, então, que encontrasse Vera Eichmann. Segundo o relatório do doutor Fritz Bauer, a esposa de Adolf Eichmann apresentara-se após o fim da guerra para pedir uma certidão de óbito em nome do marido. Segundo ela, ele havia morrido em Praga durante um bombardeio.

Vera Eichmann passou alguns anos em Viena, até que um dia desapareceu sem deixar o menor rastro. Voltou a aparecer na Argentina, instalada com os filhos no número 4.261 da rua Chacabuco, no bairro portenho de Olivos. Harel enviou para lá uma equipe de vigilância comandada pelo katsa Shalom Dani.

O katsa, nome pelo qual são conhecidos os agentes de espionagem israelense, era um especialista que trabalhara durante muitos anos em operações do Mossad na América Latina e, por isso, dominava o castelhano. Dani redigia, todos os dias, um relatório muito preciso a Eitan e Malkin. Seu principal trabalho era investigar qualquer documento relacionado à família de Adolf Eichmann que se encontrasse nos arquivos argentinos. O katsa era um especialista nesse tipo de trabalho.

A equipe do Mossad na Argentina descobriu que Vera Eichmann tinha mudado seu nome para Verônica Liebl. Tinha sido emitido um passaporte argentino com esse nome. Dani encontrou também várias entradas e saídas da Áustria nos arquivos do Departamento de Imigração do país sul-americano, e, por fim, que a família, ela e seus filhos, havia se mudado para uma humilde casa formada por duas construções na rua Garibaldi.

Ben-Gurion dissera a Harel que, antes de dar sinal verde à operação, os colaboradores deviam reunir material fotográfico do alvo. Isser Harel, Rafi Eitan e Peter Malkin sabiam que seria muito difícil se aproximarem de Eichmann, mas que seria ainda mais difícil fotografá-lo sem levantar suspeitas. Eitan disse a Shalom Dani para ordenar a seus katsa que, enquanto investigassem Vera Eichmann/Verônica Liebl, fotografassem todos os que ela contatasse.

A equipe do Nokmin precisava com a máxima urgência provar a identidade de Adolf Eichmann. Se este se desse conta de que estava sendo vigiado, talvez fugisse, escondendo-se em algum canto do mundo onde não chegasse o longo braço de Israel, o Mossad.

O relatório sobre a investigação de Ricardo Klement era absolutamente exaustivo, constando até o mais ínfimo detalhe. Mostraram-se até mesmo fotografias de Klement a vários israelenses que haviam visto Eichmann nos campos de concentração. Muitos deles, que asseguravam conhecê-lo perfeitamente, afirmaram, de modo categórico, que Ricardo Klement e Adolf Eichmann não eram a mesma pessoa.

Os katsa de Dani também não estavam seguros de que aquele homem que trabalhava na fábrica da Mercedes-Benz, no distrito de Suárez, fosse o criminoso de guerra nazista que procuravam. Klement parecia muito mais velho que Eichmann. Mas a sorte estava prestes a mudar para o Mossad.

Um katsa que seguia Klement informou que o tinha visto parar numa floricultura para comprar um grande ramalhete de flores. A princípio, a informação, escrita numa folha de papel com a data de 21 de março encabeçando o relatório, não era mais que um simples e trivial detalhe dentro da busca, mas, para Shalom Dani, era muito mais que isso. O katsa decidiu estudar as datas importantes na vida dos Eichmann. Aquele simples detalhe marcaria toda a Operação Garibaldi e o destino de Klement/Eichmann, sem que ele sequer desconfiasse.

Em Buenos Aires, Nicolas e Dieter Eichmann preparavam-se para a celebração do vigésimo quinto aniversário de casamento dos pais, e este seria o erro que levaria o Mossad a confirmar que Klement e Eichmann eram a mesma pessoa.

Adolf e Vera Eichmann tinham se casado em 21 de março de 1935, mas, segundo os documentos, Vera Eichmann e Ricardo Klement, seu suposto segundo marido, haviam se casado em 11 de agosto de 1958. Assim sendo, por que os Klement celebrariam seu aniversário de casamento na mesma data que os Eichmann deveriam celebrar?

Para Shalom Dani, aquele homem era Adolf Eichmann; para Rafi Eitan e Peter Malkin, responsáveis pelo Nokmin do Mossad, a certeza de que aquele homem era Eichmann estava cada vez mais próxima; para Isser Harel, aquela explicação sobre datas não era suficiente; e, quanto a David Ben-Gurion, ele precisava de mais provas conclusivas.

A segunda pista de maior importância para descobrir a identidade de Klement chegou ao Mossad por intermédio de Lothar Hermann, um alemão judeu que estivera enclausurado em Dachau, onde ficara cego, e que agora morava na Argentina. Por questões de destino, a filha de Hermann havia estabelecido uma relação de amizade com um jovem de origem alemã chamado Nicolas Klement. Era, com certeza, o filho de Adolf Eichmann.

Ela comentou que, durante um encontro de amigos, Nicolas disse abertamente que Hitler devia ter acabado com todos os judeus, e que o pai dele era da mesma opinião. Lothar pediu à filha que lhe descrevesse o pai de Nicolas. Lothar Hermann afirmou ter certeza absoluta de que aquele homem era de fato Adolf Eichmann.

A terceira pista veio da antiga amante alemã de Eichmann. Ela seguira o dirigente nazista até a Argentina depois de terminada a guerra; contudo, ao chegar ao país sulamericano, foi abandonada. Sem dinheiro, a mulher conseguiu emprego de garçonete no restaurante da mesma fábrica da Mercedes-Benz na qual trabalhava Ricardo Klement. A mulher revelou o paradeiro de Eichmann a um judeu georgiano chamado Adolf Tauber, informante do Mossad.

Era claro que Klement/Eichmann se sentia seguro em seu refúgio argentino, escondido atrás da fachada construída à base de mentiras e documentos falsos. Shalom Dani saberia anos depois que Eichmann havia sido convidado a partir pelas autoridades argentinas. O ex-dirigente nazista viajou para a Bolívia, onde adotou o nome de Rodolfo Spee. Obviamente, a hierarquia dos serviços de inteligência argentinos sabia desde dezembro de 1959 que o Mossad vinha seguindo Klement por algum motivo. Para o governo argentino, a presença de Adolf Eichmann em seu país era um problema.

Ante Pavelic, ditador croata pró-nazista e assessor de Juan Domingo Perón, ajudou Eichmann entregando-lhe um passaporte e contatos para que se estabelecesse na Bolívia ou no Paraguai. Um memorando do serviço de espionagem argentino demonstra que tinham “detectado agentes israelenses muito ativos em território da República Argentina”. Isser Harel soube, por intermédio do presidente Frondizi, que não interviriam no caso de se descobrir uma tentativa de sequestro de Eichmann por parte dos kidon do Nokmin.

Em finais de 1959, o comandante Jorge Messina, diretor-geral da Central de Inteligência argentina, recebeu um relatório no qual se afirmava que Ricardo Klement fora visto com um antigo nazista de alto grau hierárquico nas vizinhanças de La Gallareta, na província de Santa Fé. A descrição feita pelos agentes demonstrava que o outro homem era Josef Mengele, o “Anjo da Morte” de Auschwitz.

Com todas as provas na mão, e dado o “sinal verde” por David Ben-Gurion, Isser Harel decidiu que o melhor era supervisionar pessoalmente a operação no próprio terreno, junto a Peter Malkin e Rafi Eitan.

Quando a ordem de partida foi dada, Eitan e Malkin, os líderes da equipe de ação, começaram a fazer perguntas, como o que aconteceria se, uma vez que tivessem Eichmann em seu poder, fossem descobertos pela polícia argentina. “Decidi que estrangularia Eichmann com minhas próprias mãos. Se me prendessem, argumentaria perante os tribunais que se tratava do conceito de justiça bíblico do ‘olho por olho’”, afirmou Rafi Eitan.

Para tirar Adolf Eichmann do país, seria utilizado um avião Britannia com os distintivos da El Al, que deveria levar Abba Eban, ministro das Relações Exteriores de Israel, em viagem oficial à Argentina para a celebração do centésimo qüinquagésimo aniversário da Independência. No compartimento de carga do avião haviam construído uma cela especial onde viajaria o ex-dirigente nazista até Israel. A Metsada tinha a missão de levar Eichmann ao avião.

Em 1º de maio de 1960, os membros do Mossad que deveriam executar o plano voaram para Buenos Aires com Isser Harel, o memuneh. Uma vez na capital argentina, os katsa instalaram-se em sete apartamentos, um dos quais, a Maoz (ou “Fortaleza”), seria usado como centro de operações. Outro, o Tira (ou “Palácio”), serviria como prisão para Adolf Eichmann até que ele pudesse ser levado ao aeroporto a fim de embarcá-lo no avião da El Al, que o levaria a Israel. Para essa última etapa, os membros do Nokmin haviam alugado doze veículos da mesma marca e cor. Estava tudo preparado para se realizar o sequestro.

Dois carros com quatro katsa do Mossad em cada um deles participariam da ação. Os kidon do primeiro veículo vigiariam a esquina da rua Garibaldi para o caso de a polícia argentina aparecer. No segundo, viajariam um condutor, com Rafi Eitan a seu lado e Shalom Dani e Peter Malkin atrás. Eles executariam o sequestro. Apesar das ordens dadas por Isser Harel, de abandonar tudo caso a polícia argentina chegasse, Dani, Malkin e Eitan tinham combinado naquela mesma noite, antes de saírem do esconderijo, que, se algo desse errado, um deles devia acabar com a vida de Adolf Eichmann sem pensar duas vezes. Era um pacto de honra entre os kidon da Metsada.

A operação foi planejada para a tarde de 11 de maio. Uma hora antes da marcada para a ação, o primeiro carro de agentes do Mossad entrou na rua Garibaldi. Pouco depois, o segundo veículo pôs-se a uma distância prudente do primeiro e com perfeito campo de visão sobre a entrada da casa de Eichmann.  Agora, restava esperar.

No interior do segundo carro não havia tensão. Todos sabiam o que deviam fazer. Tinham ensaiado aquilo várias vezes durante as últimas duas semanas.

Por volta das 20 horas, Aarón, um dos katsa encarregados da vigilância, começou a ficar nervoso ao ver que Klement não aparecia como previsto. Eitan olhou para o relógio e, voltando-se, disse a Malkin que, se naquela noite Klement não chegasse, tentariam no dia seguinte, e assim por diante, até que conseguissem cumprir a missão.

Às 20h10, os faróis de outro veículo foram avistados pelos katsa, que estavam no carro à espera. Era um ônibus da linha 202, o que levava Eichmann todos os dias para a fábrica da Mercedes-Benz, onde trabalhava. De repente, o veículo parou e, ao abrirem as portas, pequenas luzes iluminaram o interior. Os agentes israelenses tentavam vislumbrar as pessoas que estavam de pé junto às portas para sair.

Desceu apenas um vulto do ônibus. Para Rafi Eitan, parecia a imagem de um “homem cansado”. Para Peter Malkin, era um assassino, um criminoso de guerra, um genocida. Lembrava-se de sua irmã Frumma, de seus primos, dos familiares assassinados durante o Holocausto nazista, organizado por homens como o que aparecia diante dele agora, andando por uma escura rua de Buenos Aires.

A rua Garibaldi ficou vazia e em silêncio depois de o ônibus partir. Malkin, Dani e Eitan já estavam fora do carro, acelerando os passos para se aproximar de Eichmann. Malkin repetia em silêncio: “Sair, safanão, para dentro. Sair, safanão, para dentro” — as mesmas palavras que havia repetido durante semanas nos ensaios do sequestro.

Enquanto os kidon se aproximavam da presa, ouviram o carro segui-los com uma das portas aberta. Nesse momento, Peter Malkin chamou sua atenção: “Um momento, senhor”. Eichmann se voltou e cruzou seu olhar com o de Malkin, que já se inclinava sobre ele, com Dani e Eitan prontos para ajudar, caso fosse necessário. O homem tropeçou num dos cadarços do sapato e quase caiu, mas várias mãos o impediram.

Malkin agarrou-o com tanta força pelo pescoço que quase lhe esmagou a carótida. “Se tivesse resistido, eu o teria matado nesse preciso momento”, diria ele, já aposentado, 36 anos depois do sequestro, no Museu do Holocausto de Washington.

Shalom Dani já estava à espera de porta aberta, pela qual Malkin e Eitan quase fizeram Eichmann voar, atirando-o para dentro do carro. Malkin, com a mão enluvada, tapava a boca de Eichmann para que ele não gritasse. O veículo rodou pelas ruas sem asfalto, com Dani e Malkin segurando a presa de modo que não pudesse levantar a cabeça. O homem que na Segunda Guerra Mundial organizou o transporte de milhões de judeus para o extermínio nos campos de concentração estava agora metido num carro rumo a um apartamento de segurança máxima e nas mãos de uma unidade de operações especiais do Mossad.

Do assento dianteiro, Eitan podia ouvir a respiração entrecortada de Eichmann a poucos centímetros dele. Malkin começou a aliviar a pressão sobre sua garganta enquanto o ajudava a relaxar a mandíbula. Ninguém falou com ele. Ninguém se dirigiu a ele. De qualquer maneira, o sequestro de Eichmann deixaria sua família numa situação incômoda. Que denúncia fariam à polícia? O desaparecimento de um criminoso de guerra ou de um simples alemão? Essa ambiguidade dava aos kidon do Nokmin certa vantagem. Ainda assim, a operação tinha de ser executada de maneira rápida e eficaz. Adolf Eichmann podia ter aliados na Argentina.

O silêncio foi quebrado quando Eichmann perguntou aos sequestradores qual o motivo daquele ultraje. Ninguém respondeu. Eitan e Malkin sabiam perfeitamente como proceder, algo que tinham repetido várias vezes. Uma vez no Tira, Rafi Eitan obrigou Eichmann a se despir. De pé, apenas de roupa íntima, um dos katsa e o médico destinado a manter o criminoso de guerra saudável até ser transferido para Israel começaram a lhe tirar as medidas. Isser Harel queria ter certeza quanto à identidade do homem que acabavam de sequestrar antes de comunicar ao primeiro-ministro Ben- Gurion.

Com uma pasta aberta, o kidon começou a ler, enquanto o médico do Mossad auscultava Adolf Eichmann: — Uma cicatriz de três centímetros abaixo da sobrancelha esquerda. Duas pontes de ouro na arcada superior. Uma cicatriz de um centímetro à esquerda da décima costela. Uma tatuagem abaixo da axila esquerda com o seu grupo sanguíneo. Altura: 1,73 centímetros. Peso: 69,3 quilos (em 1934). Cabelo: castanhoescuro. Olhos: azuis-acinzentados. Circunferência do crânio: 558,8 mm. Número da SS: 45.326 e 63.752. Número de afiliado do Partido Nazista: 889895.

O médico tirou também as medidas do joelho até o tornozelo, e do cotovelo ao pulso. Rafi Eitan queria estar totalmente certo antes de chamar Harel. Em seguida, Eichmann foi algemado à cama pelo tornozelo e mantido em isolamento completo durante dez horas. O silêncio foi quebrado de repente quando Eitan e Malkin entraram no apartamento e, depois de o acordarem bruscamente, perguntaram qual era seu nome. Eichmann disse apenas:“Ricardo Klement”. “Não, não! O seu nome alemão”, gritava Eitan.

Novamente, Eichmann pronunciou o nome que usara para fugir da Alemanha.

Rafi Eitan saiu do apartamento à espera de que Malkin o seguisse, porém, antes de fazê-lo, o katsa se voltou e tornou a perguntar: “Qual é o seu nome? Qual é o seu nome da SS?” Nesse momento, como que numa reação automática, o homem deitado na cama se pôs em posição de sentido e respondeu, clara e pausadamente: “Adolf Eichmann”.

Não lhe perguntaram mais nada.

Durante os sete dias seguintes, Eichmann e os kidon do Nokmin permaneceram isolados no apartamento. Ninguém falava com ele. O prisioneiro tomava banho, comia e ia ao banheiro em completo silêncio.

Para Rafi Eitan, manter silêncio era mais do que uma necessidade da operação. “Não queríamos mostrar a Eichmann que estávamos nervosos. Isso teria lhe dado esperança. A esperança é perigosa para um homem encurralado. Era preciso que ele se sentisse desprotegido, tal como se sentia a minha gente enviada por ele em trens para os campos de extermínio.” Contudo, Peter Malkin atuou de maneira diferente com Eichmann. Talvez o katsa procurasse resposta para muitas perguntas: Como? Por quê? Como uma pessoa é capaz de assassinar tantos seres humanos? As respostas só podiam ser dadas por aquele homem estendido na cama do outro lado da porta.

“Tratei-o como devia tratar. Na verdade, não sentia ódio por ele. Sentia apenas que tinha de cumprir meu trabalho até o fim”, afirma Malkin em seu livro Eichmann in My Hands. O único objetivo dos membros do Mossad era levá-lo com vida a Jerusalém de qualquer maneira.

Durante o cativeiro, só uma pessoa do Nokmin tinha autorização para falar com Adolf Eichmann, um interrogador especializado chamado Hans. Não obstante, Malkin não pôde resistir à tentação de dialogar com o criminoso nazista. Procurava de todos os modos possíveis descobrir o que se passava pela mente de um homem capaz de enviar milhões de pessoas à morte.

Certa manhã, quando o katsa abriu a porta para lhe servir o café da manhã, Eichmann quebrou o silêncio: “Você é o homem que me capturou?”, perguntou. “Como sabe?”, respondeu Malkin. “Nunca vou esquecer o que me disse: ‘Um momento, senhor’. Lembro-me da sua voz”, disse Eichmann a Malkin. Essa primeira troca de palavras abriu caminho para que Peter Malkin pudesse falar com Adolf Eichmann. Ali estavam, frente a frente, um agente do Mossad e um membro de alta patente da SS. Quem poderia imaginar?

A primeira coisa que o kidon Malkin fez foi lhe perguntar pelo seu filho. Eichmann, como que impulsionado por uma mola, saltou para a defensiva: “Vocês o mataram?” Malkin tranqüilizou o respondendo que não tinham nada contra sua família e que o único objetivo deles era levá-lo, são e salvo, para Jerusalém.

A pergunta seguinte que Malkin fez a Eichmann foi: “Quero que me fale do seu filho, com quem o vi brincando e abraçando tantas vezes. Por que ele está vivo, enquanto o filho da minha irmã, que tinha os mesmos olhos azuis e cabelos loiros que ele, está morto?” Então o membro da SS se endireitou e respondeu com frieza: “Era um judeu, não era? Esse era o meu trabalho. O que eu poderia fazer? Eu era um soldado. Você também é um soldado. Veio me capturar. Está cumprindo uma ordem”. Para Malkin, era impensável que o alemão comparasse as ordens que recebia de Ben-Gurion e Harel com as dadas por homens como Himmler e Heydrich.

“Não matei ninguém, só fui responsável pelo transporte de pessoas”, disse Eichmann. “Mas para onde os levou? Aos campos de concentração, à morte. Havia mulheres, crianças, minha irmã, os filhos dela. Esses eram os seus inimigos?”, replicou o agente do Mossad. Adolf Eichmann não respondeu.

Não havia dúvidas de que os membros do Nokmin que haviam estado com Adolf Eichmann durante esses dias não se esqueceriam nunca como, apesar de saber que vivia suas últimas semanas, o rosto do prisioneiro ainda se iluminava ao recordar de Adolf Hitler.

“Para ele, Hitler era um deus. Disse-me que Hitler havia mudado a vida dos alemães, que lhes tinha devolvido a honra. Mas não gostava de Himmler nem de outros superiores hierárquicos. Contou que esses tinham escapado sem terminar seu trabalho. Pelo contrário, ele se vangloriava de ter ficado até o último momento da guerra. Para ele, sua tarefa era o mais importante. Contudo, assim como os outros, acabou fugindo disfarçado de piloto.”

Enquanto os kidon faziam planos para tirá-lo clandestinamente da Argentina, ocorreram algumas situações ridículas, e até mesmo grotescas. Por exemplo, no comando do Mossad havia uma mulher chamada Rosa que, entre outras coisas, devia cozinhar. Era muito religiosa, por isso toda a comida devia ser kosher. “Por que se preocupa com o fato de a comida ser kosher? Isto é para Eichmann, não para um rabino”, diziam-lhe os agentes.

Outra das situações ridículas que ocorreram foi um dia em que Eichmann se recusou a ir ao banheiro. Apenas o fez quando Rafi Eitan lhe deu a ordem em tom militar. Então, em cada uma de suas flatulências, ele se desculpava, envergonhado. Nunca havia se desculpado por nada. Era alemão, muito eficiente, e alguém do alto comando da SS. Jamais reconheceu culpa por nada. Nunca disse “lamento muito” ou se desculpou pelo que causou a milhões de seres humanos. Apenas pediu desculpa pelo que lhe acontecia no banheiro de um apartamento isolado em Buenos Aires.

Enfim, chegou a hora de tirá-lo da Argentina. Nessa época, celebrava-se o centésimo quinquagésimo aniversário da Revolução de Maio, e foram convidadas para as celebrações delegações de todo o mundo, entre elas uma de Israel, liderada por Abba Eban, ministro das Relações Exteriores. Esta chegara num avião da El Al, que pela primeira vez aterrissava em Ezeiza.

O Mossad havia decidido levar Eichmann nesse voo. Malkin e Eitan disfarçaram o dirigente nazista com o uniforme de piloto da companhia aérea, depois o obrigaram a beber uma garrafa inteira de uísque e, por fim, injetaram-lhe um tranquilizante. Um falsificador do Mossad preparou um passaporte israelense para Adolf Eichmann.

Os kidon do Nokmin vestiram-se com uniformes de tripulantes da El Al e, depois de se borrifarem com uísque, entraram no carro que os levaria ao aeroporto. À entrada da instalação, soldados argentinos pararam o veículo.

Ao se abrirem os vidros, saiu do carro um forte odor de álcool. Um oficial, que estava um pouco mais distante, aproximou-se para pedir identificações e documentos aos ocupantes. Nesse momento, Shalom Dani, que estava sentado ao lado do motorista, introduziu os dedos na garganta, provocando uma série de vômitos. Os soldados, ao verem aquilo, pensaram que o piloto da El Al não tolerava muito bem o álcool e os deixaram passar.

Envolto em eflúvios de uísque e vômito, o veículo se aproximou a toda a velocidade do avião Britannia com os distintivos da El Al pintados na cauda. A passos trôpegos, Eitan, Dani, Malkin e Eichmann subiram a bordo.

Logo em seguida, o antigo membro da SS foi algemado e colocado numa cela construída exclusivamente para ele. A tensão se manteve entre os membros do Nokmin até passarem a ouvir o motor do Britannia aumentando as rotações para levantar voo até Israel. Era meia-noite do dia 21 de maio de 1960, exatamente dez dias depois de se ter realizado o sequestro na rua Garibaldi.

Adolf Eichmann não queria ir para Jerusalém. Perguntava aos katsa do Mossad por que não ir para Frankfurt, por que não ir para Munique. Talvez achasse que um tribunal da República Federal da Alemanha o condenaria à prisão perpétua, mas nunca à morte. Por fim, assinou uma declaração de que saía por livre e espontânea vontade da Argentina.

Quando Eichmann reapareceu, perante um tribunal de Israel, numa grande caixa de vidro blindada, o ministro argentino dos Negócios Estrangeiros, Diógenes Taboada, exigiu publicamente ao embaixador de Israel na Argentina, Aryeh Levavi, que explicasse o que havia acontecido. A única resposta oficial dada ao governo de Buenos Aires chegou do próprio David Ben-Gurion: “Tomamos as medidas adequadas a um caso excepcional. Agora todos os inimigos de Israel, no passado, no presente e no futuro, ficarão sabendo que, se ameaçarem nossa segurança, o longo braço de Israel poderá alcançá-los onde quer que se escondam”.  Talvez essas palavras tenham se convertido em premonição, visto que, depois do êxito dos kidon do Nokmin ou “os Vingadores” no sequestro de Adolf Eichmann, o Mossad e seu novo diretor, Meir Amit, dariam sinal verde para a criação da temível unidade de operações especiais do Mossad, que se converteria no longo braço de Israel ao qual Ben-Gurion se referia.

No fim, Adolf Eichmann acabou pedindo a seu sequestrador, o kidon Peter Malkin, que fosse visitá-lo quando estivesse preso em sua cela em Jerusalém. O agente prometeu que assim o faria, e um dia apareceu na sala do tribunal durante o julgamento. Nessa ocasião, o kidon pôde ver sua presa dentro de uma caixa de vidro. Ambos se olharam a distância. Não havia nada a dizer.

O katsa do Mossad deu meia-volta e se perdeu nos corredores entre a multidão que se apinhava para ver, como se se tratasse de um animal no jardim zoológico, um homem que havia levado para a morte milhões de pessoas sem o menor vestígio de arrependimento.

Em 12 de dezembro de 1961, o presidente do tribunal leu as acusações e a sentença. Adolf Eichmann foi considerado culpado de quinze acusações, entre elas a de ser responsável pela deportação de meio milhão de poloneses e de 14 mil eslovenos para campos de concentração; de ser responsável direto pela morte de milhões de judeus e de dezenas de milhares de ciganos; e pela morte de 91 crianças de Lídice. Eichmann ouviu todas as acusações sem se alterar, assim como a sentença que o condenava a morrer enforcado num dia e lugar não divulgados.

Depois de diversas apelações por parte dos advogados de Eichmann, os doutores Robert Servatius e Dieter Wechtenbruch, o Supremo Tribunal de Israel ratificou a sentença. Na madrugada entre o dia 31 de maio e o dia 1º de junho de 1962, Adolf Eichmann foi retirado de sua cela e acompanhado por William Hull, pastor protestante, até o patíbulo levantado para a ocasião.

Nesse dia estava presente Rafi Eitan, o mesmo que dirigiu a equipe de Vingadores que o sequestrara pouco mais de dois anos antes. Eichmann o olhou com certo desprezo e lhe falou: “Chegará o dia em que você me seguirá, judeu”. Eitan respondeu: “Mas hoje não é esse dia, Adolf, não é esse dia”.

Depois de breves palavras, o carrasco da prisão de Ramallah colocou a corda ao redor do pescoço do antigo membro da SS. Após uma indicação do diretor da prisão, acionou a alavanca, abrindo o alçapão sob os pés de Eichmann. O corpo se projetou para baixo dando um pequeno solavanco. Eichmann morreu com o pescoço quebrado. O odor de defecação inundou toda a sala do patíbulo. Talvez, apenas talvez, Adolf Eichmann tivesse experimentado a mesma sensação de medo antes de falecer que a sentida por milhões de pessoas antes de entrarem nas câmaras de gás.

Havia se construído um forno especial para cremar o cadáver de um dos principais responsáveis pela Solução Final à questão judaica. Dois soldados do exército israelense baixaram-no com a corda ainda presa, despiram-no e o introduziram no forno a milhares de graus de temperatura. Poucas horas depois, restava apenas um pouco de cinzas, que foram arremessadas ao mar numa zona ampla por ordem expressa de David Ben-Gurion. O primeiro-ministro não desejava converter a morte e nem o cadáver de Eichmann num culto nazista. Em seguida, o forno foi desmantelado e destruído. Não restava mais nada de Adolf Eichmann na face da Terra.

O próximo alvo da Metsada e de seus kidon seria outro nazista importante, Herbert Cukurs, que o Mossad apelidara de “Carrasco de Riga”. Ao contrário de Eichmann, Cukurs assassinara pessoalmente quase 30 mil judeus, homens, mulheres e crianças, na capital da Letônia. Eichmann não passava de um “burocrata”, um dos responsáveis pelo Holocausto. Cukurs, porém, era pura e simplesmente um “assassino” e um “carniceiro”.

A Operação Garibaldi gerou intenso debate na Argentina e um enérgico protesto do governo de Arturo Frondizi contra Israel. O governo de Buenos Aires chegou até a pedir a devolução de Adolf Eichmann.

Adolf Eichmann foi julgado em Israel entre 2 de abril e 14 de agosto de 1961. Condenado à morte, foi enforcado na prisão de Ramallah, entre 31 de maio e 1º dejunho de 1962. Sua família, filhos e netos, ainda vivem na Argentina.

Isser Harel, o homem que tornou possível a primeira operação da unidade de operações especiais do Mossad, que pouco depois seria conhecida como Metsada, demitiu-se do cargo de memuneh no dia 1º de abril de 1963, após uma série de divergências com o primeiro-ministro David Ben-Gurion.

Peter Malkin faleceu no dia 1º de março de 2005. Até o momento de sua morte morou com a filha e as netas em Washington D.C.. O último contato que o autor teve com ele foi num domingo, 13 de outubro de 1996, durante uma celebração no Museu do Holocausto, na capital norte-americana.

Rafi Eitan teve em Israel uma longa carreira no Mossad, onde assumiu o cargo de chefe de Operações Especiais da Metsada. Como militar, atingiu o posto de general e chefe do Estado-Maior. Como político, foi membro do Parlamento até sua morte, ocorrida em 23 de novembro de 2004, aos 75 anos.

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