Guerra das Malvinas – Operação Algeciras – Argentinos planejavam levar a guerra à Europa.

Por Ariel Palacios

Almirante Anaya: mentor do desembarque da ditadura nas Malvinas, retirou a frota do mar quando viu que as coisas iam de mal a pior na guerra contra a Grã-Bretanha.

“Levar a guerra à própria Europa!”. Este era o plano do almirante Jorge Isaac Anaya, integrante da troika que formava a Junta Militar argentina em 1982, comandada pelo general Leopoldo Fortunato Galtieri. O almirante, nos primeiros dias da guerra, começou a elaborar alternativas que poderiam permitir que a Argentina ganhasse a guerra sem entrar em combate direto no Atlântico Sul. O plano escolhido foi o de afundar navios britânicos dentro do porto de Gibraltar, uma das principais bases navais de Sua Majestade, localizada em um enclave no sul da Espanha.

O nome-código foi “Operação Algeciras”, já que teria como base de atividades a cidade espanhola de Algeciras, na frente de Gibraltar.

Bahia de Algeciras: do lado esquerdo, Gibraltar, domínio britânico desde o século XVIII, quando a Espanha assinou um tratado cedendo a península. Do lado direito, Algeciras. Ali estavam os argentinos desta sui generis missão.

O plano era um remake de um velho projeto ultra-confidencial do almirante Emílio Massera, famoso por seu maquiavelismo e predecessor de Anaya no comando da Marinha. A intenção era afundar os navios mas não reivindicar o ataque. O projeto inicial era o de realizar um ataque na própria Grã-Bretanha. Mas, levando em conta que dificilmente o grupo argentino passaria desapercebido, optaram pela Espanha, onde simulariam que eram turistas.

Em 2002 Anaya confirmou pela primeira vez a existência da operação. O ex-almirante declarou na época que “a operação devia ser um segredo, já que não queríamos que os ingleses pensassem que por trás dos atentados havia argentinos envolvidos”. Segundo ele, “a idéia era que a OTAN, sem pensar que os argentinos estavam por trás disso, pedisse à Grã-Bretanha que atendesse os problemas que tinha no Hemisfério Norte, e dessa forma ganharíamos tempo nas negociações sobre as Malvinas”.

O grupo que afundaria os navios ingleses estava composto por uma fauna heterogênea que reunia em uma única missão dois grupos que até pouco tempo haviam odiado-se mutuamente: os guerrilheiros montoneros e os militares argentinos. No grupo estava Máximo Nicoletti, um ex–montonero, que depois de preso pelos militares, havia delatado grande parte de seu grupo original. Transformado em um defensor da ditadura, Nicoletti treinava os militares em explosões submarinas. Escafandrista de grande habilidade, em 1975 havia atacado a fragata Santíssima Trinidad, da Marinha argentina (depois da guerra Nicoletti transformou-se em pirata do asfalto).

O grupo viajou à Espanha três semanas depois da invasão argentina às Malvinas. Os explosivos foram até Madri via mala diplomática. No total, eram duas minas submarinas de fabricação italiana, com 25 quilos de trotyl em cada uma.

Dali, partiram em carro para o sul da Espanha. No meio do caminho compraram um bote de borracha. O plano consistia em fingir que eram pescadores argentinos que faziam turismo na costa espanhola. Desta forma, circulariam pela baía de Algeciras, diante da base de Gibraltar, sem levantar suspeitas. Parte do grupo mergulharia na água e colocaria as bombas no casco dos navios. Nos primeiros mergulhos de exploração, os argentinos descobriram que os ingleses não haviam colocado as redes de proteção submarina. Portanto, deduziram que não esperavam qualquer tipo de ataque.

O primeiro alvo seria o HMS Ariadne, que estava a ponto de atracar na base no 2 de maio. Mas, o plano foi suspenso durante algumas horas, já que o presidente do Peru, Belaúnde Terry, havia proposto um plano de paz para ambos lados em conflito. Anaya ordenou que o grupo ficasse em stand-by, já que uma eventual explosão em Gibraltar poderia colocar a pique um plano de paz que favoreceria a Argentina.

No entanto, nesse mesmo dia o cruzador argentino General Belgrano foi afundado pelo submarino britânico HSM Conqueror fora da área de guerra, entre as Malvinas e o continente. Anaya ordenou que o grupo prosseguisse em sua missão original de levar o conflito militar até a Europa.

ALMOÇO – No entanto, os argentinos não conseguiram sequer subir no bote. No dia 3 de maio, antes de chegar a Algeciras, quando estavam hospedados em um hotel em Málaga, chamaram a atenção de um delegado espanhol pelos gastos excessivos que estavam fazendo com dinheiro em espécie. Além disso, o delegado Miguel Catalán considerou que os argentinos eram “mal-encarados” e deduziu que deveriam ser narco-traficantes ou os integrantes de uma quadrilha de argentinos e uruguaios que nos meses prévios haviam assaltado joalherias no sul da Espanha. Quando os deteve, depois de verificar que os passaportes eram falsos, o policial descobriu o carregamento de explosivos.

Na delegacia, o chefe da missão, o capitão Rosales, pediu ao delegado um minuto a sós. Quando ficaram sozinhos no escritório, disse ao espanhol: “sou oficial da Marinha argentina. Estou em uma missão secreta. A partir deste momento me considerou prisioneiro de guerra e não direi uma palavra a mais”. O delegado respondeu rindo: “se você é um marinheiro argentino, eu sou o sobrinho do Papa!”

Os trâmites para a detenção do grupo eram lentos e burocráticos. Cansados, os argentinos propuseram aos policiais espanhóis que todos almoçassem juntos. À mesa, o grupo confessou a missão. O delegado espanhol respondeu: “que pena que você não me disse isso antes de ter comunicado sua detenção a meus superiores! Se tivesse sabido que iam afundar um navio inglês os teria deixado livres. No fim das contas, Gibraltar também é um território roubado pela Inglaterra”.

Mas, já era tarde para voltar atrás. Os argentinos foram colocados em sigilo pelo governo do primeiro-ministro Leopoldo Calvo Sotelo em um avião até as ilhas Canárias. Dali, foram embarcados rumo à Buenos Aires. O governo espanhol manteve silêncio sobre o evento, já que a Espanha havia entrado pouco tempo antes na OTAN.

CONDENADO – Em 1986 o ex-almirante Anaya foi condenado pelo Conselho Superior das Forças Armadas a 14 anos de prisão pela incompetência no comando da Guerra: “ele causou lesões graves à honra de nossas armas e feriu profundamente a fé da nação em seu valor e eficiência profissional”. Foi anistiado em 1990 pelo ex-presidente Carlos Menem.

Em 2006 foi acusado de 266 casos de sequestros de civis que teriam sido torturados e assassinados na Escola de Mecânica da Armada (ESMA). No entanto, poucas horas antes de sair de casa rumo ao tribunal, sofreu um ataque do coração. Anaya ficou em prisão domiciliária, com câncer, até que morreu em 2008.

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Publicado originalmente no Estadão.

 

 

 

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