Nemmersdorf – A invasão soviética à Prússia – 1944

Em 16 de outubro, o Exército Vermelho iniciou sua ofensiva por toda a Prússia Oriental, em meio a um ataque contínuo da artilharia que se estendia por uma faixa de quarenta quilômetros do front, além de seguidos ataques aéreos às aldeias da fronteira. Era como se não houvesse a menor defesa por parte da Luftwaffe, e o Quarto Exército alemão, extremamente enfraquecido com o colapso do Grupo de Exércitos Centro no verão, foi forçado a retirar-se para o oeste. No dia 18, tropas soviéticas avançaram pela fronteira alemã. Em três dias elas penetraram nas linhas germânicas, abrindo passagem por quase sessenta quilômetros no interior do Reich, através de um front com cerca de 150 quilômetros. As cidades fronteiriças de Eydtkau, Ebenrode e Goldap caíram nas mãos dos soviéticos, enquanto Gumbinnen e Angerapp escaparam por pouco do mesmo destino, embora a primeira tenha sofrido pesados danos provocados por ataques aéreos, e as tropas soviéticas chegaram a seus arredores. No início da manhã de 21 de outubro, os invasores alcançaram a vila de Nemmersdorf, onde, embora encontrassem intacta uma importante ponte sobre o rio Angerapp, a ofensiva se deteve.

A liderança do Grupo de Exércitos Centro esperava que o ataque soviético, quando ocorresse, fosse o prelúdio a uma ofensiva maciça que poderia alcançar o coração da Alemanha. Nas circunstâncias em que se deu, a pausa do invasor em Nemmersdorf permitiu que o Quarto Exército tornasse a se agrupar, reunisse suas energias e, com a ajuda de reforços das divisões Panzer, arriscasse uma ousada e bem-sucedida manobra de cerco aos soviéticos, numericamente superiores, que foram tomados de surpresa e sofreram pesadas baixas. Impressionados pela contra-ofensiva da Wehrmacht, os comandantes inimigos de pronto passaram à defensiva, retirando suas tropas. No dia 17 de outubro, a ofensiva soviética foi abandonada. Em 3 de novembro tropas alemãs libertaram Goldap — reduzida a ruínas e saqueada pelos soldados do Exército Vermelho — e, dois dias mais tarde, a “primeira batalha da Prússia Oriental” chegava ao fim, ao custo de perdas extremamente altas para ambos os lados. Foi possível evitar uma investida soviética à capital da Prússia Oriental, Königsberg, que teria sido destrutiva ao extremo. Os soldados alemães — em especial aqueles que tinham vindo do leste —, apesar do treinamento muitas vezes reduzido e dos armamentos inadequados, lutaram com fúria para deter os invasores. Mesmo assim, uma faixa de cem quilômetros de extensão e 27 adentro da Prússia Oriental ficaram sob ocupação soviética. O front dessa área permaneceu estável até janeiro.  Mas os habitantes da Prússia Oriental eram de agora em diante uma espécie altamente ameaçada de extinção.

O motivo pelo qual o Exército Vermelho se deteve após ter conquistado uma boa posição ao atingir Nemmersdorf ficou claro quando as tropas nazistas conseguiram retomar a área, em 23 de outubro, mal tendo se passado 48 horas da ocupação soviética. O que encontraram à sua espera foi uma cena de horror. O nome de Nemmersdorf em pouco tempo tornou-se familiar para a maioria dos alemães. Passou a significar o que estes deveriam esperar se o Exército Vermelho viesse a conquistar o Reich.

A tragédia que se abateu sobre Nemmersdorf e os moradores dos distritos vizinhos foi agravada pelo lamentável fracasso das autoridades nazistas — repetido com consequências ainda piores poucos meses mais tarde — em proceder à evacuação de seus habitantes em tempo hábil.  A evacuação de toda a região ameaçada foi caótica. Koch representou o exemplo paradigmático do que ocorre quando o poder escoa do centro de decisões até os chefes do partido nas províncias, processo que se intensificaria no começo de 1945. Instigado por seu assessor, Paul Dargel, Koch tinha completo controle sobre as medidas de evacuação. E, com o apoio de Hitler, recusou-se a autorizar que se procedesse à evacuação mais cedo, por receio de que isso provocasse uma retirada em massa da província e sinalizasse a derrota para o resto do Reich. A população deveria permanecer no local pelo maior tempo possível, indicando com isso sua determinação e a certeza de que nada seria capaz de abalar seu moral. O desejo da própria Wehrmacht — de que a área deveria ser totalmente esvaziada — foi ignorado.  O comandante em chefe do Grupo de Exércitos Centro, coronel-general Reinhardt, viu-se reduzido a inúteis paroxismos de fúria diante do comportamento arrogante de Koch na ocasião.  Quando as ordens para a evacuação por fim foram dadas, mostraram-se previsivelmente caóticas em sua execução. Dargel e outros funcionários do partido só foram localizados horas mais tarde. Um líder de distrito surgiu por alguns instantes, para logo refugiar-se num bar local e embriagar-se até o estupor. Um caminhão requisitado para ajudar na evacuação não apareceu e, ao que tudo indica, foi sequestrado por um oficial do partido para escapar com comida e bebida. No momento mais crítico, funcionários do partido — as únicas pessoas que poderiam dar ordens — fracassaram miseravelmente em suas obrigações.

Nemmersdorf, a posição mais a oeste na incursão soviética, teve forte envolvimento com a evacuação atrasada e caótica. À medida que as tropas soviéticas se aproximavam, moradores das cidades e aldeias vizinhas saíam correndo em pânico, em cima da hora. Carroças puxadas por cavalos vindas de toda parte faziam fila para atravessar a crucial ponte de Nemmersdorf. As pessoas levavam os poucos pertences que conseguiam recolher e fugiam para salvar a vida. Ajudadas pela cobertura da pesada névoa de outono, muitas delas conseguiram de fato cruzar a ponte, encontrando segurança mais a oeste, mesmo nas últimas horas antes da chegada do Exército Vermelho. Mas para alguns moradores, tanto de Nemmersdorf como de outras localidades vizinhas, já era tarde demais. Eles acordaram nas primeiras horas de 21 de outubro para se deparar com os soldados soviéticos já em suas aldeias.

Os soldados do Exército Vermelho, calejados pelos sucessivos combates, tinham aberto caminho rumo ao oeste saindo de seu próprio país, atravessando a Polônia e entrando, pela primeira vez, no território de seu odiado inimigo. Enquanto avançavam por desertos de morte e destruição, eles testemunharam o legado de selvagem brutalidade deixado pelas conquistas e pela subjugação alemãs, bem como o rastro de terra arrasada, claro indício da fuga desembestada de um Exército outrora conhecido pela arrogância. Observaram também os sinais inconfundíveis do terrível sofrimento de seu próprio povo. A propaganda soviética encorajava claramente uma retribuição drástica. “Vinguem-se sem piedade desses fascistas, assassinos de crianças e carrascos; façam com que eles paguem na mesma moeda pelo sangue e pelas lágrimas das mães e das crianças soviéticas”, dizia uma proclamação típica em outubro de 1944.57 “Matem. Não há nada de que os alemães não sejam culpados” era a exortação de outra.58 Ao atingir o território alemão, e encontrando pela primeira vez uma população civil inimiga, ódios represados explodiram numa vingança violenta. Quando tropas alemãs entraram em aldeias e cidades retomadas pela Wehrmacht depois de dias de ocupação soviética, depararam-se com os cadáveres de civis assassinados, amarga indicação das atrocidades que haviam ocorrido. As piores aconteceram em Nemmersdorf e passaram a simbolizar essas primeiras monstruosidades do Exército Vermelho.

No entanto, detalhes do que aconteceu em Nemmersdorf permanecem obscuros. Desde o início, tornou-se difícil fazer a distinção entre fatos e propaganda. Certos depoimentos, que foram prestados alguns anos mais tarde e marcaram o episódio com imagens horríveis, são duvidosos. De acordo com o relato mais vívido, apresentado cerca de nove anos depois dos fatos, um homem da Volkssturm cuja companhia recebera ordens de ajudar na limpeza de Nemmersdorf após o ataque declarou ter encontrado várias mulheres nuas presas pelas mãos às portas de um celeiro, em posição de crucifixo; uma mulher idosa cuja cabeça fora cortada em duas partes por um machado ou uma pá; e 72 mulheres e crianças selvagemente assassinadas pelo Exército Vermelho. Segundo o relato desse homem, todas as mulheres haviam sido estupradas. Os corpos, ele alegou, haviam sido exumados, e as violências sexuais, confirmadas por uma comissão internacional de médicos.

Relatório compilado pela Geheime Feldpolizei (polícia militar secreta), enviada em 25 de outubro, dois dias após a saída das tropas soviéticas, para interrogar eventuais testemunhas e descobrir o que havia acontecido, apresenta, contudo, um retrato diferente — assim mesmo, bastante sombrio. Tinham ocorrido pilhagens, indicava o relatório, e duas mulheres haviam sido estupradas. Encontraram-se os cadáveres de 26 pessoas, principalmente homens e mulheres de idade avançada, mas também crianças. Algumas foram encontradas em covas abertas, outras em valetas, na estrada ou dentro de casas. A maioria morrera com um tiro na cabeça, embora o crânio de uma das vítimas tivesse sido esmagado. Mas não havia descrições macabras de crucificações. Um médico alemão de um regimento do distrito procedeu ao exame dos cadáveres. É interessante notar que o médico pessoal de Himmler, professor Gebhardt, abalou-se até Nemmersdorf um dia após a saída das tropas soviéticas, embora, presumivelmente, não fosse necessária a presença de alguém de seu nível hierárquico apenas para determinar a causa das mortes. A essa altura, ao que tudo indica, as principais lideranças nazistas já haviam atribuído a Nemmersdorf uma importância especial. Logo chegaram ao local funcionários do Departamento de Propaganda, acompanhando a retomada da área, afoitos para explorar a crueldade dos soviéticos como meio de incentivar os alemães a prosseguir na luta e que não hesitavam em exagerar na narrativa quando isso servia a seus propósitos.

Naturalmente, a propaganda alemã fez tudo o que podia das atrocidades dos soviéticos. As cenas mais escabrosas podem ter sido inventadas. Por outro lado, as atrocidades não foram mera obra da propaganda, ou de alguma elaboração posterior. O general Werner Kreipe, chefe do Estado-Maior da Luftwaffe, em visita à Divisão Panzer Hermann Göring, situada nas proximidades de Gumbinnen, na área de Nemmersdorf, registrou, numa anotação em seu diário, poucas horas depois da retirada soviética, que corpos de mulheres e crianças encontravam-se pregados em portas de celeiros. Ele então determinou que as barbaridades fossem fotografadas para servir de prova.  Se as fotos chegaram a ser tiradas, desapareceram há muito tempo. Um atirador das tropas alemãs que entrou em Nemmersdorf no dia 22 de outubro rabiscou, no diário que escondia sob o uniforme, a descoberta de “incidentes terríveis envolvendo corpos mutilados”, alguns deformados, um velho com o corpo perfurado por um forcado e pendurado na porta de um celeiro, imagens “tão terríveis que alguns de nossos recrutas saíam correndo em pânico e vomitavam”. A quantidade de mortos em Nemmersdorf pode ter sido menor do que a alegada pelos relatos alemães, embora alguns dos números mais elevados provavelmente incluam as vítimas dos soldados do Exército Vermelho em localidades vizinhas.  É possível também que o número de estupros tenha sido menor do que o denunciado, embora alguns com certeza tenham ocorrido — e o comportamento posterior do Exército Vermelho em sua passagem pelo leste da Alemanha não sugere que se deva fazer bom juízo de seus soldados. O coronel-general Reinhardt esteve no distrito em 25 de outubro. No dia seguinte, enviou uma carta à sua esposa contando que “os bolcheviques devastaram tudo como animais selvagens, incluindo o assassinato de crianças, sem falar nos atos de violência contra mulheres e garotas, que eles também mataram”. Reinhardt se disse profundamente abalado com o que viu.  Apesar de todas as dúvidas que possam existir sobre a verdadeira dimensão dos homicídios e estupros, e é necessário levar em conta a natureza e o objetivo da exploração do episódio pela propaganda, as atrocidades não foram produto da imaginação de algum propagandista do regime nazista. Fatos terríveis aconteceram realmente em Nemmersdorf e arredores.

Além disso, seja qual for a verdade sobre os detalhes precisos das atrocidades, a propaganda acabou por adquirir uma realidade própria. Em termos do impacto causado por Nemmersdorf, é provável que seu principal efeito tenha sido reforçar a disposição dos soldados em defender o leste a todo custo, lutando até o fim para que não fossem derrotados pelo Exército Vermelho, e ainda encorajar a população civil a fugir tão logo tivesse oportunidade. A imagem de Nemmersdorf acabou por se tornar mais importante do que a autenticidade factual de sua horrível realidade.

Camaradas,

Este é um trecho do livro O Fim do Terceiro Reich de Ian Kershaw publicado pela Editora Companhia das Letras,  que narra o desastre nazista ao final da Segunda Guerra  com pinceladas  da visão alemã  neste período, sociedade e política. Em uma de suas passagens mais marcantes, ele retrata o massacre de Nemmersdorf, ocorrido no outono de 1944 durante a primeira invasão soviética ao território alemão.

 

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