Crime de Guerra ou não? – O afundamento do Wilhelm Gustloff

Por Sagran Carvalho.

Quando pensamos em naufrágios, invariavelmente nos vem a cabeça a lembrança do terrível destino do Titanic,  dos seus passageiros e sua tripulação, onde cerca de 1500 pessoas perderam a vida. Realmente foi uma tragédia que comoveu a todos, além de ser com certeza, o naufrágio mais divulgado e estudado da história.
Porém não foi o maior em número de vítimas civis, como veremos abaixo.
Mas antes um prelúdio bem resumido da situação naquele momento na Frente Oriental  alemã na Segunda Guerra:
Em 1º de janeiro de 1945, os exércitos de Stalin haviam chegado aos limites da Prússia Oriental, conquistado toda a Letônia, onde a Segunda Frente do Báltico cercou o Grupo de Exércitos Norte na Curlândia.  A frente de batalha se estendia da Letônia, passando pela Polônia até a Romênia, e a situação não era das melhores para os alemães, pois a disparidade de forças em favor dos soviéticos era avassaladora, em torno de onze para um na infantaria, sete para um em blindados e vinte para um na artilharia e na aviação, além do fato das reservas de combustível e munição alemãs diminuírem rapidamente e não poderem ser repostas na velocidade e quantidade necessária A situação era trágica para os nazistas.
Em 12 de janeiro, quando a ofensiva soviética sobre a Prússia Oriental teve início só coube aos alemães vender caro cada metro conquistado pelo avanço soviético, e de fato, mesmo com toda a superioridade, as baixas no Exército Vermelho foram superiores às dos alemães, mas ainda assim, era uma situação se saída para os nazistas.
Os civis foram impedidos de evacuarem suas cidades, porque os líderes nazistas viam nisto  ato derrotista, até que a situação tornou-se insustentável.
Quando as evacuações foram autorizadas, uma das rotas de fuga dos civis era Dantzig e Gdynia, cidades a margem do Mar Báltico, onde com muito atraso os nazistas, através da Kriegsmarine, efetuaram, ou ao menos tentaram  o resgate de civis enquanto a região ainda se mantinha nas mãos  alemãs.
No Báltico aconteceria o maior naufrágio de um navio “civil” de toda a história em número de mortos. Ali foi a pique o Wilhelm Gustloff, navio alemão carregado de refugiados prussianos, que fugiam do rolo compressor soviético.

O Wilhelm Gustloff era um navio de cruzeiro alemão construído pelos estaleiros Blohm & Voss para a KdF ( Força pela Alegria ), uma organização civil que promovia atividades recreativas e culturais.
O início de sua construção se deu em 1º de maio de 1936, indo ao mar em 5 de maio de 1937, e entregue finalmente à KdF em 15 de março de 1938. Seu primeiro comandante foi Carl Lubbe. O navio deslocava 25.484 toneladas a uma velocidade de 15 nós, era operado por 417 tripulantes e tinha capacidade para 1463 passageiros.

No inicio da Segunda Guerra, foi transformado em navio-hospital, tendo participado na evacuação de feridos da Polônia quando da sua invasão em 1939, mais tarde efetuando a mesma missão em Oslo, após as invasões da Dinamarca e da Noruega pelos alemães.
Após estes eventos, em 17 de novembro de 1940, foi transferido para Gotenhafen ( Gdynia ), dando baixa como navio-hospital, e  três dias mais tarde sendo convertido em navio-alojamento.
Com a invasão soviética à Prússia Oriental em andamento e a uma velocidade que transtornava o Alto Comando alemão, e com Dantzig e Gdynia já superlotadas de refugiados, foi dada a Kriegsmarine a ordem de evacuar os refugiados para regiões do Reich que não sofressem a ameaça soviética. Esta operação recebeu o nome de “Aníbal”. O Wilhelm Gustloff, que estava ancorado em Gdynia desde 1940 seria o primeiro a realizar a operação, com apoio do Cruzador Admiral Hipper e uma pequena flotilha de Caça-Minas e lanchas armadas. Há uma certa controvérsia quanto ao número de pessoas a bordo, alguns citam em torno de sete mil, outros alegam que haviam cerca de nove mil e seiscentas pessoas, mais cerca de mil tripulantes apinhados no navio.  O fato é que não havia menos que sete mil a bordo.
Comandado por Friedrich Petersen e Wilhelm Zahn, a rota seguiria por uma área limpa de minas. No dia 30 de janeiro de 1945 zarpou, e ao contornar o cabo, encontrou com as escoltas mencionadas acima. A meio caminho do seu destino, por volta das 21:00hs, com uma temperatura de cerca de 10º negativos, o comandante Friedrich Petersen viu da ponte do navio uma flotilha de lanchas torpedeiras navegando em sentido inverso ao do navio, e neste momento deu ordens para que se acendessem as luzes do navio,  o que foi fatal, pois o submarino soviético S-13, comandado por Ivanovich Alexander Marinesko, vinha seguindo o comboio. Com a claridade das luzes, Marinesko deu a ordem para que se disparassem quatro torpedos, tendo três deles atingido em cheio o Wilhelm Gustloff.  O navio adernou e afundou cerca de uma hora depois, mais precisamente às 22:18 horas.
O sinal de SOS foi emitido pela tripulação antes do naufrágio, e aos poucos lanchas e navios de socorro chegaram, conseguindo resgatar cerca de 1239 náufragos, outros mencionam em 964 este número. O caos só não foi maior, pois se encontravam próximos ao litoral da Pomerânia. Acredita-se que tenham perecido nesta tragédia entre 8.500 e 9.600 pessoas, sendo a grande maioria de mulheres, crianças e homens feridos.
O comandante do submarino soviético I. A. Marinesko não recebeu à época a recomendação para Herói da União Soviética devido a problemas de disciplina e alcoolismo( o NKVD negou ), tendo morrido em 1963 de úlcera. Em 1990 foi postumamente elevado a Herói da União Soviética,no quadragésimo quinto aniversário da vitória.

A grande maioria dos historiadores ocidentais vê no afundamento do Wilhelm Gustloff um crime de guerra, pois entre os embarcados haviam somente refugiados prussianos ( mulheres, crianças e idosos) e soldados feridos. Os historiadores russos,  concordam com a versão oficial soviética de que o navio levava cerca de 6.000 hitleristas, dos quais 3.700 eram submarinistas.
Fica a critério de cada um escolher a versão que acredite ser a verdadeira. Eu estou com os historiadores ocidentais.

Fontes: Berlin 1945: A queda. – Antony Beevor;

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