Porque Generais Bem-Sucedidos são Ovelhas Negras

Por Michael Rank

Se alguém quisesse dizer o melhor lugar para se encontrar um bom general, não se sairia tão bem se dissesse no topo da hierarquia militar.

É uma afirmação estranha a se fazer, uma vez que generais são, por definição, homens de carreira militar. Eles passam décadas impressionando seus superiores e sendo promovidos. Não existe nenhuma outra carreira óbvia a ser seguida para se tornar um comandante. Isso se manteve verdade ao longo da historia e foi particularmente verídico no caso do general Gideon Pillow. Este, que foi descrito por Steward Sifakis como sendo “um dos homens mais repreensíveis que já vestiu as três estrelas e a coroa de general da Confederação”, serviu como oficial por décadas no Exército apesar de arruinar quase toda tentativa na liderança militar. Foi indicado Brigadeiro General de Voluntários em 1846 durante a guerra entre mexicanos e norte-americanos por ser sócio do presidente James K. Polk. Pillow foi bem sucedido em pouca coisa a não ser alegar feitos alheios como sendo seus. Ele tomou crédito em vitórias americanas como nas Batalhas de Contreras e Churubusco escrevendo uma carta anônima ao New Orleans Delta e se auto-creditando pelo sucesso. Sua farsa foi descoberta e foi quase punido juridicamente pelos comandantes americanos Winfield Scott e Zachary Taylor. Polk interveio pela segunda vez para salvar seu amigo alegando ser responsável pela carta.

Depois de fracassar nos apelos feitos ao Senado americano e a vice-presidência, Pillow recebeu outra comissão oficial no início da Guerra Civil. O governador do Tennessee, Ishan Harris, o fez majorgeneral no exército provisório do estado. Apesar de ter obtido sucesso em algumas batalhas como a de Fort Donelson, em fevereiro de 1862, ele recuou suas tropas desperdiçando então tudo aquilo que havia sido conquistado arduamente. Quando comandou a brigada no dia 2 de janeiro de 1863 na Batalha de Stones River, Pillow foi encontrado se escondendo atrás de uma arvore ao invés de liderar o batalhão. Depois dessa façanha, ele foi deixado de fora das batalhas. Depois de terminada a guerra, abriu um escritório junto com o antigo governante Harris.

A carreira militar de Pillow é vergonhosa, mas, tristemente, é uma história comum entre os generais ao longo das eras. Grandes generais tipicamente não planejam guerras no início das hostilidades. Eles geralmente são membros da burocracia e cujos amigos com altos cargos no governo lhe dão as ordens. Tal como apontou Victor Davis Hanson no seu livro “The Savior Generals,” homens como Pillow assumem estes cargos em tempos de paz quando a promoção depende de seguir e mantêm as regras estabelecidas por esta mesma burocracia. Seguem regras previsíveis, “como manda o figurino”, que se baseiam em ataques frontais e diretos. E por essa razão que, infelizmente, Pillow prosperou na sua profissão militar. Ele era amigo das pessoas certas e correto o suficiente para não constranger alguém importante. Pillow também era um comandante sistemático que não corria riscos e preferia ataques menos elaborados ao subterfúgio de um ataque pelo flanco do inimigo.

Pillow pode ter sido um mau general, mas lutou de um modo que foi considerado aceitável. A sociedade privilegia soluções diretas e conhecidas a métodos novos ou poucos familiares. Nos dias de hoje, isso é tão verdade quanto nos tempos da Guerra Civil ou da Segunda Guerra Mundial. Imagens das forças aliadas invadindo praias da Normandia e investindo diretamente contra atiradores alemães são vistas com enorme admiração e respeito. O comandante que guia seus soldados com coragem e sangue frio é admirado e eternizado no que se remete a estratégia militar. O historiador Bevin Alexander diz que é por essa razão que o exército pode ser equiparado ao futebol americano. Este esporte consiste no confronto direto entre o ataque e a defesa, e ambos se chocam constantemente durante todas as jardas.

Tais comandantes são respeitados e seguem metodicamente os sistemas, mas falham terrivelmente quando se deparam com um inimigo imprevisível. Contrastando com esse fato, os grandes generais da história dependem do elemento surpresa. Alexander observa que praticamente todas as manobras militares na história foram feitas contra o flanco dos inimigos, seja o real ou o psicológico. Tais ataques destroem os suprimentos, os reforços e a comunicação dos inimigos. Generais mais fracos são psicologicamente debilitados e rapidamente perdem a confiança. Um clássico exemplo do uso dessa estrategia é Cipião Africano, o general da Segunda Guerra Púnica que enfraqueceu o domínio de Cartago sobre a Espanha ao ignorar seus exércitos e atacar a base principal em Cartagena. Napoleão só foi vencido em 1814 quando os exércitos inimigos fugiram, não se importando de incumbir um ataque sequer, e capturaram Paris. Isto forçou seu povo a se render.

Um outro exemplo de general heterodoxo, porém bem sucedido é o bizantino Flávio Belisário. Ele conquistou a maior parte do Império Romano Ocidental no século VI a.C. O feito foi obtido pela liderança de um pequeno exército de 5000 soldados contra dez vezes mais godos usando táticas brilhantes e sutis. O cerco de Nápoles, que estava em vigor há meses, foi finalmente vencido em 537, quando soldados passaram pelos muros da cidade escondidos nos aquedutos. Desceram na cidade se utilizando dos galhos sobressalentes de uma oliveira, andaram sorrateiramente pela cidade em direção a uma das torres, mataram os soldados que estavam de vigília, lançaram uma escada de corda que permitiu que seus companheiros adentrassem. Houve um massacre da população civil. Quando as notícias da vitória se espalharam, outras cidades italianas abriram seus portões para que não sofressem do mesmo destino.

Belisário então chegou a Roma e preparou um longo cerco contra o massivo exército godo. Uma vez que suas tropas começaram a sofrer com a escassez de suprimentos, o general bolou um plano engenhoso. Ele sabia que corria risco de ser atacado, então mandou um subordinado seguir em direção norte até a Toscana com 2000 cavaleiros para atacar de surpresa algumas cidades inimigas. Lá, encontraram pouca resistência, uma vez que a maioria dos soldados adversários estava em Roma. Belisário mandou que continuasse em direção à Ravena, a capital goda. Seu comandante, Vittigis, ficou tão agitado frente ao ataque surpresa, que acabou por resignar. Belisário derrotou-o dispensando uma batalha custosa e assim conseguiu com que os godos jurassem aliança a Roma.

Assim como muitos outros generais famosos da história, a excentricidade e natureza inconvencional de Belisário lhe renderia suspeitas. Não foi recebido com saudações heróicas pelo imperador bizantino Justiniano, que o considerou como sendo um desafiador da política. Ele ganhou o rancor dos líderes políticos que tinham uma profunda inveja do seu sucesso. Não aproveitou a fama e a reputação que recebera em Constantinopla. Generais como Belisário, por terem predisposições individualistas e serem francos, geralmente vivem na infâmia após seus momentos de glória. Isso é válido inclusive para aqueles que obtiveram um sucesso fantástico nas batalhas e salvaram as nações pelas quais lutavam. Em 562, foi julgado sob acusações de corrupção. Foi considerado culpado e inclusive, acabou indo parar na prisão, porém, mais tarde, foi perdoado pelo imperador. Diz a lenda, que no fim da vida de Belisário, Justiniano ordenou que seus olhos fossem retirados, reduzindo-o a um mendigo que vivia nas ruas próximas da Porta Pinciana, em Roma. Ele viva das esmolas que recebia dos transeuntes até que imperador lhe perdoasse.

Diversos fatos determinam o sucesso de um general; matar o maior número de soldados inimigos não é um critério suficiente. Tal medida iria inevitavelmente influenciar este livro em prol dos generais modernos que têm acesso a mísseis Hellfire e comunicação via satélite e em detrimento dos generais antigos que tinham em seu poder recursos mais primitivos de infantaria, arqueiros e cavalaria. Serão examinadas, portanto que superam o espaço e o tempo. Primeiro, o general deve ser um líder inspiracional de suas tropas. Ele deve ser capaz de discipliná-los antes de entrar em batalha e motivá-los quando as circunstâncias parecerem desesperadoras e a derrota iminente. Um general de êxito inspira essas qualidades em suas tropas através de sua virtude e coragem, não simplesmente proferindo uma versão amenizada do discurso do dia de São Crispim e observar a batalha na segurança de seu esconderijo. Tal general motiva suas tropas não só ao encorajar no campo de batalha, mas também nos aspectos cotidianos ao ser um bom administrador. Ele deve ser hábil em lidar com a logística massiva da guerra mantendo abertas rotas de suprimento para reforços, equipamentos e armas.

Segundo, um general sucedido deve ser um especialista no ponto de vista estratégico e tático. Estratégia é a arte do planejamento a longo prazo e antecipação. Ela surge da união da inteligência, escolher a maneira de atacar ou defender, encontrar o ponto fraco do inimigo e manipular os adversários. Um verdadeiro comandante executa um plano que evita a batalha como um todo e que busca apenas a vitória. Napoleão fez isso muitas e muitas vezes, particularmente com seu método mortal conhecido como manoeuvre sur les derrieres: inesperadamente marchar contra o pelotão principal do inimigo e se concentrar num ponto fraco, porém vital. Ele fazia isso se posicionando de tal forma que a parte do fundo do terreno estivesse bloqueada, como por exemplo, por causa de um rio, prevenindo assim com que o inimigo obtivesse reforços ou suprimentos. Táticas é o pulo do gato, respostas instintivas, a verdadeira batalha. São os momentos de improvisação e que testam a criatividade e flexibilidade. São a habilidade de decidir entre atacar, se retirar ou se render. E um general deve ser capaz de dar vida aos seus planos engenhosos durante as batalhas para que sejam efetivas. Um ataque sorrateiro é fácil de ser planejado, porém difícil de ser executado.

Finalmente, o general deve produzir resultados. Primeiro e mais importante, devem ser capazes de derrotar seus inimigos em pequenos conflitos. Pillow é um excelente exemplo negativo desse princípio. Quando Ulysses S. Grant lutou contra Pillow em Fort Donelson, sabia que poderia atacar a fortaleza mesmo sem nenhuma superioridade esmagadora. Esse seria um movimento arriscado de acordo com os cálculos militares da Guerra Civil. Mas ele já havia lutado com Pillow na Guerra Mexicana Americana e sabia de sua natureza frouxa. Grant escreveu em suas memórias que, “pelo que conheci do general Pillow no México, sou capaz, independente do meu poder de fogo, não importa o quão pequeno seja, de conquistar qualquer trincheira na qual ele esteja encarregado de assegurar.” Este fato é contrastado com Alexandre, o Grande, que era imbatível nas guerras e que rompeu com o domínio persa, o império mais poderoso do tempo, não com números maiores, mas com manobras nunca antes vistas com sua cavalaria. Resumindo, perdas contínuas no campo de batalha não são do feitio de comandantes famosos.

Essas vitórias são particularmente notáveis porque todas tiveram como ponto em comum o fato de uma tropa pequena encarar um oponente maior e com superioridade tecnológica. A Batalha das Termópilas em 480 ainda vive sua infâmia, na qual 300 soldados espartanos resistiram a aproximadamente um milhão de soldados do exército persa por uma semana enquanto a marinha ateniense preparava um ataque pelo mar. Se o comandante é capaz de vencer a luta, expandir seu território, e aumentar o poder da nação do seu reino, então este reserva uma passagem especial para o sucesso. As conquistas de Gengis Khan e seus descendentes diretos se expandiram do Oceano Pacífico à Hungria. Napoleão ameaçou conquistar toda a Europa enquanto esta estava fracionada politicamente por quase 2000 anos.

É por essas razões que os generais deste livro são tão respeitados nos dias de hoje, apesar de terem sido menos quando estavam vivos. As estratégias de batalha nascidas na era do escudo e do punhal ainda são ensinadas nas academias militares, mesmo na era dos drones e das guerrilhas. Os nomes “Gengis” e “Alexandre” são nomes populares no mundo islâmico, mesmo sendo ambos representantes pagãos. Eles são protagonistas em milhares de livros, filmes, peças de teatro e videogames.

 

Camaradas,

Este trecho é a introdução do livro Os Maiores Generais da História, escrito por Michael Rank e editado no Brasil pelo mesmo.

Achei bem interessante a narrativa  sobre as capacidades e fraquezas dos comandantes militares, mesmo contando com certo exagero ao mencionar na Batalha das Termópilas o número de inimigos enfrentado pelos 300.

Recomendo a leitura do livro.

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