Hégira – Bin Laden, expulso do Sudão, volta ao Afeganistão e declara Guerra aos Estados Unidos

Por Lawrence Wright

Bin Laden contou a Abdel Bari Atwan que conseguiu recuperar cerca de 10% de seu investimento depois que o governo do Sudão propôs pagar-lhe em cereais e gado, que ele pôde revender a outros países ( Atwan, Secret History, p.52 ). Mohammed Loay Baizid contou que Bin Laden investiu só 20 milhões de Dólares no Sudão, e que provavelmente deixou o país com cerca de 50 mil Dólares. Hassabullah Omer, responsável pelo arquivo de inteligência sudanês sobre a Al-Qaeda, situa o investimento total de Bin Laden em 30 milhões de Dólares e afirma que ele deixou o país “sem nada”.

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O Sudão ficara para trás, Bin Laden sobrevoou o mar brilhante e estreito, e logo Jidá e Meca passaram embaixo, e a escarpa de Al-Sarawat, e depois o grande deserto amarelo, marcado apenas pelas estradas construídas por seu pai. Tinha 38 anos. Havia sido famoso, um herói, mas agora se tornara um refugiado, proibido de aterrissar no próprio país. Seu avião reabasteceu-se nos Emirados Árabes Unidos, onde Bin Laden foi sadado por emissários do governo qe podem ter lhe dado dinheiro. Havia sido rico a vida toda, mas enterrara o dinheiro em investimentos ruins, que foram, de qualquer modo, praticamente roubados dele. Agora aceitava a caridade dos que lembravam seu nome.

Voou sobre os superpetroleiros sendo abastecidos nas docas junto às gigantescas refinarias ao longo dos portos do golfo Pérsico, a fonte de tanta riqueza e tantos problemas. Para além do Irã estende-se o deserto branco ao sul do Afeganistão, e depois Kandahar, cercada de ruínas de seus canais de irrigação e pomares de romã. Agora restavam apenas campos de papoulas, o último recurso que valia a pena cultivar no país devastado por vinte anos de guerra. A selvageria dos soviéticos fora esquecida na convulsão da guerra civil. A autoridade sucumbira em toda parte. As estradas foram entregues a bandoleiros que exigiam pedágio e, as vezes, quando o dinheiro era insuficiente raptavam crianças. Tribos combatiam entre si, chefes guerreiros lutavam uns contra os outros. Traficantes de drogas e a máfia dos transportes dominavam a economia estéril. As cidades haviam sido tão duramente atingidas que se desintegraram em pilhas de tijolos e pedras. Postes de eletricidade, cheios de furos após duas décadas de bombardeios e há muito tempo sem nenhum fio, pontilhavam à beira das estradas qual lembranças fantasmagóricas de uma época em que o Afeganistão dava os primeiros passos rumo a modernidade. Milhões e milhões de minas terrestres infestavam os campos, tendo mutilado 4% da população, de acordo com uma pesquisa da ONU, e inutilizado grande parte da terra arável.

Quando Bin Laden sobrevoou Cabul, a capital se encontrava outra vez sitiada, agora pelo Talibã. O movimento havia surgido em 1994 como um pequeno grupo de estudantes, a maioria órfãos criados em campos de refugiados, indignados com o caos e a depravação do governo dos mujahidin. Os libertadores da guerra contra os soviéticos haviam se revelado governantes mais bárbaros que seus inimigos. Incitado à ação pela miséria que a vitória trouxera ao Afeganistão, o Talibã ascendeu com rapidez estonteante. Graças ao apoio da inteligência paquistanesa, transformou-se de uma milícia populista em um exército de guerrilheiros poderoso e com grande mobilidade, prestes a consolidar sua vertiginosa subida ao poder lançando foguetes da periferia de Cabul sobre as ruínas da cidade.

No vale próximo, na base das montanhas Hindu Kush, ficava Jalalabad. Bin Laden pousou no mesmo aeroporto que sitiara em 1989. Foi saudado por três antigos comandantes mujahidin, e então instalou-se num velho alojamento rio acima que servira de posto militar soviético. Algumas semanas depois, mudou-se novamente, para uma fazenda dilapidada oito quilômetros ao sul de Jalalabad. O proprietário era um de seus antigos patrocinadores, Younis Khalis, chefe guerreiro idoso com fraco por noivas adolescentes.

O Afeganistão é um país grande e acidentado, dividido de leste a oeste pelas montanhas Hindu Kush. A população se compõe de quatro grupos étnicos principais e numerosas tribos que falam dialetos variados. Um país difícil de governar mesmo em tempo de paz, embora a paz fosse uma lembrança tão distante que muitos afegãos jamais a haviam experimentado. O desejo de ordem era tamanho que qualquer poder forte e estabilizador seria bem-vindo.

Os talibãs rapidamente capturaram nove das trinta províncias do Afeganistão. O presidente Burhanuddin Rabbani tentou negociar com eles, mas eles simplesmente exigiram sua renúncia. O ardiloso e experiente comandante Ahmed Shah Massoud conseguiu expulsar os jovens insurgentes do sul de Cabul e anular seu avanço em algumas províncias. Após observarem a anarquia acarretada pelo governo dos mujahidin e concluírem que o Talibã oferecia a melhor chance de impor a ordem, a Arábia Saudita e o Paquistão ajudaram a reerguer as forças talibãs, fornecendo treinamento, armas e veículos – principalmente utilitários Datsun com tração nas quatro rodas e metralhadoras pesadas, canhões, armas antiaéreas ou lança-foguetes com vários canos sobre plataformas. Os talibãs avançavam céleres, em enxames, compensando em rapidez e ousadia o que lhes faltava em organização e disciplina. Contrataram pilotos e comandantes do antigo regime comunista como mercenários. Os líderes da oposição reconheceram o desenrolar dos eventos e aproveitaram a oportunidade para encher os bolsos com propinas dos talibãs. Jalalabad, que resistira aos mujahidin durante meses, de repente se rendeu a quatro talibãs num jipe. O Talibã controlava agora a entrada do desfiladeiro Khyber. E acabou se vendo responsável por um refugiado famoso.

Os talibãs não haviam convidado Bin Laden a voltar ao Afeganistão, nem tinham obrigação para com ele. Enviaram uma mensagem ao governo saudita perguntando o que fazer. A resposta: ficar com ele e mantê-lo calado. Bin Laden passou ao controle de um eremita político, o mulá Mohammed Omar, que pouco tempo antes se autodeclarara “o governante de todos os muçulmanos”.

O mulá Omar havia perdido o olho direito numa explosão de bomba de artilharia na batalha de Jalalabad, em 1989, que também lhe desfigurara o queixo e a testa. Magro mas alto e de constituição robusta, tinha fama de ser um exímio atirador, tendo destruído muitos tanques soviéticos durante a guerra no Afeganistão. Ao contrário da maioria dos mujahidin afegãos, falava um árabe sofrível, e passou a frequentar as palestras do xeique Abdullah Azzam. Devoção, modéstia e coragem eram os aspectos principais de sua personalidade. Passava quase despercebido nas palestras de Azzam, exceto pelo sorriso tímido ocasional sob a barba preta cerrada e o conhecimento que tinha do Alcorão a da Hadith. Havia estudado jurisprudência islâmica no Paquistão.

Depois que os soviéticos se retiraram do Afeganistão, Omar regressou para ensinar numa madrassa ( escola religiosa em regime de internato ) de uma aldeia perto de Kandahar. A luta, porém, não se encerrou, nem mesmo com a queda final do governo comunista, derrubado pelos mujahidin em abril de 1992. A violência não respeitava limites. Tribos em guerra e bandidos perambulavam pelo interior. Ódios étnicos ancestrais combinaram-se com brados de vingança de parte a parte na escalada da selvageria. Um comandante local orquestrou o estupro sucessivo de vários meninos. Tais indecências eram comuns. “A corrupção e a desintegração moral haviam tomado conta do país “, afirmou Omar mais tarde. “Mortes, saques e violência haviam se tornado a norma. Ninguém jamais imaginara que a situação pudesse se deteriorar tanto. Ninguém acreditava tampouco que pudesse melhorar”.

Naquele momento desesperado, Omar teve uma visão. O profeta lhe apareceu e ordenou àquele simples mulá de aldeia que pacificasse seu país. Com o destemor do total empenho religioso, Omar tomou emprestado uma motocicleta e começou a visitar alunos de outras madrassas na província. Os estudantes ( a palavra em pachto é talibã ) concordaram que alguma coisa tinha de ser feita, mas poucos estavam dispostos a deixar os estudos e juntar-se a Omar naquela empreitada arriscada. Ele acabou reunindo 53 dos mais corajosos. Seu antigo comandante na guerra contra os soviéticos, Haji Bashar, humilde diante da visão que Omar tivera do profeta, ajudou a coletar dinheiro e armas e doou pessoalmente dois carros e um caminhão. Logo, com cerca de duzentos adeptos, os talibãs assumiram a administração do distrito de Maiwand, na província de Kandahar. O comandante local se rendeu, junto com 2500 homens, um suprimento grande de armas, alguns helicópteros e veículos blindados, e seis aviões MIG-21. Desesperados por restabelecer a ordem, muitos afegãos acorreram aos talibãs, que se apresentavam como servos fervorosos e incorruptíveis de Deus.

Três correntes, fluindo do Afeganistão com rapidez extraordinária, alimentaram o Talibã. Uma foi o apoio material – dinheiro e armas – da Arábia Saudita e do Paquistão. Alguns dos talibãs haviam sido alunos da escola vocacional que Ahmed Badeeb, chefe do estado-maior do príncipe Turki, fundara durante a guerra. Desse modo, desde o início houve uma ligação estreita entre a inteligência saudita e os jovens insurgentes.

A segunda corrente advinha das madrassas ao longo da fronteira com o Paquistão, como aquela criada por Ahmed Badeeb, lotadas com filhos de refugiados afegãos. Tais escolas eram extremamente necessárias, porque o Paquistão, com uma das taxas de analfabetismo mais altas do mundo, não criara um sistema de ensino público que instruísse adequadamente seus próprios filhos, e menos ainda os 3 milhões de refugiados afegãos que fugiram para o Paquistão após a invasão soviética. ( Havia um número igual de refugiados no Irã ) As madrassas costumavam ser custeadas por instituições de caridade da Arábia Saudita e de outros países do golfo, que canalizavam o dinheiro através dos partidos religiosos locais. Como resultado, muitos dos santuários sufistas foram fechados e transformados em escolas que ensinavam a doutrina wahhabi. Naturalmente, as madrassas criaram um eleitorado poderoso para os partidos wahhabi locais, já que, além de forncer hospedagem e alimentação gratuitas, pagavam um estipêndio mensal – uma fonte de sustento vital para as famílias de alunos.

Aqueles rapazes haviam crescido num mundo exclusivamente masculino, separados de suas famílias por longos períodos. As tradições, costumes e folclore de seu país eram coisas distantes para eles. Estigmatizados como pedintes e maricas. sofriam assédio de homens que viviam isolados das mulheres. Entrincheirados nos estudos, que se concentravam rigidamente no Alcorão, na Sharia e na glorificação da jihad, os estudantes imaginavam uma sociedade islâmica perfeita, enquanto a ilegalidade e a barbárie grassavam à sua volta. Viviam à sombra dos pais e irmãos mais velhos, que haviam derrotado a pujante superpotência, e estavam ávidos por alcançar a glória também. Sempre que o exército talibã necessitava de reforços, as madrassas de Peshawar e das Áreas Tribais simplesmente interrompiam as aulas, e os alunos iam à guerra, louvando a Deus nos ônibus em que atravessavam a fronteira. Seis meses depois da rendição de Kandahar, o Talibã contava com 12 mil combatentes, e duplicou este contingente nos seis meses seguintes.

A terceira corrente era o ópio. Imediatamente depois de capturar Kandahar, os talibãs consolidaram seu controle sobre a província de Helmand, centro da produção de ópio. Sob o Talibã, o Afeganistão tornou-se o maior produtor de ópio do mundo. Os contrabandistas e os barões das drogas dependiam dos talibãs para manter as estradas livres de bandidos. Em troca, pagavam uma taxa de 10%, que se tornou importante fonte de renda para o Talibã.

Em Kandahar, existe um santuário que abriga o que ser o manto do profeta Maomé. O traje antigo é removido de sua caixa de prata apenas durante períodos de catástrofe – a última vez havia sido durante uma epidemia de cólera, setenta anos antes. Em 4 de abril de 1996, Omar levou o manto do profeta a uma mesquita no centro da cidade. Tendo anunciado pelo rádio que exibiria a relíquia em público, subiu ao telhado da mesquita e, por trinta minutos, desfilou com as mãos nas mangas do manto, enquanto uma multidão em delírio aclamava-o como Amir-ul-Momineen, o líder dos fiéis. Algumas pessoas desmaiaram; outras atiravam chapéus e turbantes para cima, esperando que roçassem no traje sagrado.

É claro que o sonho dos islamitas em toda parte era ver sua religião reunificada sob o governo de um único indivíduo justo. Reis e sultões haviam se candidatado ao papel, mas nenhum se envolvera no manto do profeta como aquele obscuro mulá – um gesto ao mesmo tempo acintoso e eletrizante. Omar adquiriu a autoridade política de que precisava para travar a guerra. Mais do que isso, a ação prometia, simbolicamente que o Talibã, como força moral, conquistaria o Afeganistão e depois se estenderia por todo o mundo islâmico.

Ao chegar a Jalalabad, as famílias de Bin Laden e alguns de seus seguidores depararam com alojamentos rudimentares: tendas para as esposas, com latrinas e fossas de drenagem, dentro de uma área cercada com arame farpado. Quando o inverno chegou, Bin Laden obteve uma moradia nova para suas famílias numa ex-fazenda coletiva soviética, que chamou de Najm al-Jihad ( estrela da guerra santa ). Os homens dormiam por perto, na antiga caverna de armazenamento de munições que Bin Laden escavara em Tora Bora. Ele equipou a caverna principal com um arsenal de Kalashnikovs, uma biblioteca teológica, um arquivo de recortes de jornais e alguns colchões espalhados sobre caixotes de granadas de mão.

Osama voltou aos negócios, abriu um pequeno comércio de mel, mas faltava ao Afeganistão infra-estrutura comercial, de modo que ele não podia fazer muita coisa. As três esposas que permaneceram com ele estavam acostumadas às adversidades, que Bin Laden aceitava naturalmente. Ele já não matava um cordeiro todo dia para servir aos convidados. Agora, raramente comia carne, preferindo viver de tâmaras, leite, iogurte e pão ázimo. A eletricidade só funcionava três horas por dia, e, na ausência de serviço telefônico internacional, as esposas viviam completamente isoladas de suas famílias na Síria e na Arábia Saudita. Bin Laden tinha um telefone por satélite, mas o usava pouco, temendo que os americanos estivessem monitorando as chamadas. Suspeitava de dispositivos mecânicos em geral, até dos relógios, que acreditava que podiam ser usados para vigiá-lo.

Mas ele estava mais preocupado com os talibãs. Não tinha a menor ideia de quem eram. Apreensivos, os membros das tribos da região norte do Afeganistão espalharam rumores de que o Talibã era um exército enorme de comunistas. Quando dois patrocinadores dos mujahidin, o governador Mehmoud e Maulvi Saznoor, foram mortos numa emboscada logo depois da queda de Jalalabad, Bin Laden deu lições de tiro às suas esposas.

Os talibas, porém, sabiam alguma coisa sobre Bin Laden, e estavam igualmente preocupados com ele. “Não queremos que ações subversivas sejam lançadas daqui contra quaisquer outros países”, declarou o ministro das Informações talibã em exercício. “Em áreas sob o controle do Talibã, não há terroristas.” Mas tinham ouvido falar dos milhões que Bin Laden injetara no Sudão, e acharam que ainda fosse um filantropo islâmico abastado. Esperavam empregar seu dinheiro e conhecimento para reconstruir o país devastado. O mulá Omar também estava atento à promessa que fizera, sem dúvida apoiada por milhões de riais sauditas, de manter seu hóspede em silêncio e longe de problemas.

Depois da queda de Jalalabad, os talibãs enfim entraram em Cabul. Os jovens combatentes vitoriosos irromperam no complexo da ONU, onde Najibullah, o antigo presidente do Afeganistão da era comunista, se refugiara desde a queda de seu governo, quatro anos antes. Ele e o irmão foram espancados e torturados, castrados, arrastados num jipe, fuzilados e depois dependurados num poste de trânsito no centro de Cabul. Encheram suas bocas de cigarros e seus bolsos de dinheiro. Não havia muito a lastimar sobre um homem que iniciara a carreira como torturador da polícia secreta, mas o desrespeito imediato aos protocolos internacionais, a selvageria gratuita, a mutilação do corpo – proibida pelo islã – e a ausência de qualquer tribunal de justiça armaram o cenário para o carnaval de tirania religiosa que caracterizou a era talibã. O príncipe Turki logo apareceu em Cabul para cumprimentá-los pela vitória. Durante todo o reinado talibã, somente três países – Arábia Saudita, Paquistão e Emirados Árabes Unidos – reconheceram o governo afegão.

“As mulheres não devem sair de suas residências”, ordenou o novo governo. As mulheres constituíram um alvo especial, como seria de esperar de homens com tão pouca experiência em companhia delas. “Se as mulheres saírem às ruas com roupas da moda, ornamentais, apertadas e charmosas para se exibir”, continuava o decreto, “serão amaldiçoadas pela sharia islâmica e não terão nenhuma esperança de ir para o céu.” O trabalho feminino e o ensino às mulheres foram proibidos, destruindo o sistema de saúde, o serviço público e acabando com a educação primária. Quarenta por cento dos médicos, metade dos funcionários públicos e sete de cada dez professores eram mulheres. Sob o Talibã, muitas delas se tornariam mendigas.

Os talibãs também voltaram a atenção para os prazeres corriqueiros. Proibiram as crianças de soltar pipas e também as corridas de cachorros. Pombos treinados foram sacrificados. De acordo com o código penal talibã, “coisas impuras” foram proibidas, uma categoria abrangente que incluía:

carne de porco, toucinho, banha de porco, qualquer coisa feita de cabelos humanos, antenas parabólicas, cinema, qualquer equipamento que produzisse o prazer da música, mesas de bilhar, xadrez, máscaras, álcool, fitas cassete, computadores, videocassetes, televisores, qualquer coisa que propagasse o sexo e contivesse música, vinho, lagosta, esmalte de unhas, fogos de artifício, estátuas, revistas de corte e costura, fotos, cartões de Natal.

Os ditadores da moda exigiam que a barba dos homens fosse maior que sua mão aberta. Os infratores ficavam na prisão até a barba crescer. Um homem com cabelos longos “tipo Beatles” tinha de raspar a cabeça. Se uma mulher saísse de casa sem véu, “sua casa será marcada, e seu marido, punido”, decretava o código tribal talibã. Os animais do zoológico – os que não foram roubados nos governos anteriores – foram sacrificados ou deixados sem comida. Um talibã fanático, quiçá louco, saltou para dentro da jaula de um urso e cortou fora seu nariz, achando que a “barba” do animal não era comprida o suficiente. Outo combatente, intoxicado pelos acontecimentos e por seu próprio poder, adentrou a cova do leão e bradou: “Eu sou o leão agora!” O leão o matou. Outro soldado talibã atirou uma granada na cova, cegando o animal. O urso sem nariz e o leão cego, além de dois lobos, foram os únicos animais que sobreviveram ao regime talibã.

“Atire a razão aos cães”, dizia um cartaz afixado na parede do escritório da polícia religiosa, treinada pelos sauditas. “Ela fede a corrupção.” O povo afegão, contudo, exausto de guerra, no início aceitou a imposição daquela ordem custosa.

Enquanto Bin Laden fixava residência em Jalalabad, seu amigo e chefe militar Abu Ubaydah supervisionava a célula da Al-Qaeda no leste da África, criada dois anos antes. O ex-policial egípcio era uma figura reverenciada na organização. Sua coragem era lendária. Lutara com Bin Laden na guerra contra os soviéticos, desde a batalha da Cova do Leão até o cerco a Jalalabad. Dizia-se que se Zawahiri havia conquistado o cérebro de Bin Laden, Abu Ubaydah conquistara seu coração. Como o emissário de maior confiança de Osama muitas vezes servia de mediador entre a Al-Qaeda a e Al-Jihad. Ele treinou mujahidin na Bósnia, Chechênia, Caxemira e Tajiquistão, atraindo recrutas valorosos para os acampamentos da Al-Qaeda. No Quênia, assumira uma nova identidade e desposara uma nativa, afirmando estar se dedicando à mineração, quando na verdade preparava o primeiro grande ataque da Al-Qaeda contra os Estados Unidos.

Em 21 de maio, três dias depois de Bin Laden trocar o Sudão pelo Afeganistão, Abu Ubaydah e seu cunhado queniano, Ashif Mohammed Juma, viajavam numa cabine de segunda classe de uma barcaça lotada no lago Vitória, rumo à Tanzânia. Um dos tanques de lastro estava vazio, e na madrugada a barcaça emborcou em águas revoltas. Juma conseguiu sair pela porta da cabine até o corredor, mas outros cinco passageiros, apertados no minúsculo compartimento ficaram presos. A porta estava agora acima deles, e a água jorrava por um portal aberto. Passageiros gritavam, bagagens e colchões caindo sobre eles, e se agarravam uns aos outros na tentativa de alcançar a porta, a única saída. Juma segurou a mão de Abu Ubaydah e estava puxando-o para fora da cabine, mas de repente a porta se soltou da dobradiça, e o chefe militar da Al-Qaeda foi arrastado de volta à cabine pelos companheiros condenados.

Aquele foi o nadir da carreira de Bin Laden.

Abu Ubaydah não foi sua única perda. Outros, como Abu Hajer, optaram por não o seguir de volta ao Afeganistão. O saudita estava isolado, desprovido de sua riqueza outrora tão grande, dependendo da hospitalidade de um poder desconhecido, mas não alquebrado nem subjugado. Vivia em dois níveis, o existencial e o sagrado. O vôo até Jalalabad e a desgraça de sua situação devem ter dado a impressão, em um nível, de um exílio desesperador. Mas, em termos espirituais, recapitulavam um momento critico da vida do profeta, quando em 622, marginalizado e ridicularizado, viu-se expulso de Meca e se refugiou em Medina. A hégira, ou fuga, como o evento se chama, foi um divisor de águas tão significativo que inicia o calendário islâmico. A hégira transformou Maomé e seus seguidores desmoralizados. Em poucos anos, sua religião nascente rompeu os limites de Medina e espalhou-se da Espanha à China, numa eclosão ofuscante de conversão e conquista.

Desde a infância, Bin Laden conscientemente tomara como modelo certos aspectos da vida do profeta, optando por jejuar nos dias em que ele jejuava, trajar roupas semelhantes às que ele teria trajado, e até se sentar para comer com a mesma postura que a tradição atribui a Maomé. Embora nada disso seja incomum para um muçulmano rigoroso, Bin Laden instintivamente fazia referência ao profeta e sua época como o modelo de sua própria vida e época. A história intermediária pouco significava para ele. Naturalmente, ele procuraria consolação no exemplo do profeta durante seu próprio período de derrota e recuo. Entretanto, era esperto o suficiente para reconhecer o poder simbólico da própria hégira e sua utilidade como um meio de inspirar seus seguidores e acenar a outros muçulmanos para que aderissem à retirada sagrada. Osama brilhantemente redimensionou o desastre que se abatera sobre ele e seu movimento, evocando imagens bastante significativas para muitos muçulmanos e praticamente invisíveis para aqueles não familiarizados com a religião.

O Afeganistão já estava marcado por milagres, as mortes de mártires e a derrota da superpotência. Bin Laden chamava aquele país agora de Khorasan, referindo-se ao império muçulmano antigo que abrangeu parte da Ásia Central. Seus adeptos adotaram nomes alusivos aos companheiros do profeta ou a guerreiros famosos dos primórdios do islã. Segundo uma passagem polêmica da Hadith, nos últimos dias, os exércitos do islã desfraldarão estandartes negros ( como a bandeira do Talibã ) e sairão do Khorasan. Usarão nomes de guerras alusivos às suas cidades, prática seguida pela legião da Al-Qaeda. Todas essas referências pretendiam fazer uma associação com a grandeza do passado e lembrar os muçulmanos da perda que haviam sofrido.

O símbolo-chave da hégira de Bin Laden, porém, foi a caverna. Foi numa caverna em Meca que o profeta viu pela primeira vez o anjo Gabriel, que na ocasião lhe revelou: “ès um mensageiro de Deus”. De novo, em Medina, quando os inimigos o perseguiam, Maomé se protegeu numa caverna magicamente oculta por uma teia de aranha. A arte islâmica está plena de imagens de estalactites, em referência ao santuário e também ao encontro com o divino que as caverna proporcionaram ao profeta. Para Bin Laden, a caverna representava o último lugar puro. Só se retirando da sociedade – e do tempo, da história, da modernidade, da corrupção, do Ocidente sufocante – ele poderia pretender falar em nome da religião verdadeira. Um produto da genialidade de Bin Laden como relações-públicas foi a opção de explorar a presença das cavernas de munição de Tora Bora para se identificar com o profeta nas mentes de muitos muçulmanos que ansiavam pela purificação da sociedade islâmica e a restauração do domínio desfrutado no passado.

No plano existencial, Osama estava marginalizado, fora do jogo: mas, dentro da crisálida mítica que tecera em torno de si, vinha se transformando no representante de todos os muçulmanos perseguidos e humilhados. Sua vida e os símbolos dos quais se investia corporificavam, de forma poderosa, a sensação geral de expropriação que caracterizava o mundo muçulmano moderno. Em seu próprio exílio miserável, ele absorveu a miséria dos companheiros de fé; sua perda habilitava-o a falar por eles: sua vingança consagraria o sofrimento deles. O remédio que ele propunha: declara guerra aos Estados Unidos.

“Vocês não ignoram a injustiça, a repressão e a agressão que se abateram sobre os muçulmanos em decorrência da aliança de judeus, cristãos e seus agentes, a ponto de o sangue muçulmano ter se tornado o sangue mais barato do mundo e seu dinheiro e riqueza serem saqueados pelos inimigos”, dizia Bin Laden em 23 de agosto de 1996, em sua “Declaração de guerra contra os americanos que ocupam a terra dos dois lugares sagrados”. A última afronta – “uma das piores catástrofes a acometer os muçulmanos desde a morte do profeta” – foi a presença de tropas americanas a da coalizão na Arábia Saudita. O proposito de seu tratado foi “abordar, elaborar e discutir meios de retificar o que atingiu o mundo islâmico em geral e a terra das duas mesquitas sagradas em particular”.

“Todos estão se queixando de tudo”, observou Bin Laden, assumindo a voz do homem muçulmano nas ruas. “As pessoas têm estado muito preocupadas com questões de sobrevivência. O declínio econômico, preços altos, dívidas gigantes e prisões lotadas são o assunto geral das conversas.” Quanto a Arábia Saudita, “todos concordam que o país está avançando rumo a um abismo profundo”. Os poucos sauditas corajosos que confrontaram o regime exigindo mudanças foram desprezados; enquanto isso, a dívida da guerra levou o Estado a criar impostos. “As pessoas se perguntam: será que nosso país é realmente o maior exportador de petróleo? Elas se sentem atormentadas por Deus por terem se calado sobre as injustiças do regime.”

Ele então provocou o secretário da Defesa americano, William Perry, chamando-o pelo nome: “Ó William, amanhã saberás quais jovens estão enfrentando teus irmãos desgarrados. {…} Aterrorizar-vos, enquanto carregais armas em nossa terra, constitui uma obrigação legítima e moral”.

Osama estava tão longe de poder cumprir aquelas ameaças que se poderia concluir que ficara louco. Na verdade, o homem na caverna adentrara uma realidade distinta, profundamente ligada aos acordes míticos da identidade muçulmana e, de fato, voltada a qualquer um cuja cultura estivesse ameaçada pela modernidade, pela impureza e pela perda da tradição. Ao declarar guerra aos Estados Unidos de uma caverna no Afeganistão, Bin Laden assumiu o papel de um primitivo indômito e impoluto opondo-se ao poder terrível do Golias secular, científico e tecnológico. Em suma, estava combatendo a própria modernidade.

Tudo bem que Osama Bin Laden, o magnata da construção civil, tivesse aberto a caverna com maquinário pesado e a guarnecesse de computadores e aparelhos de comunicação avançados. A postura do primitivo era sedutora e poderosa, sobretudo para pessoas desapontadas com a modernidade. Mas a mente que entendia esse simbolismo e como ele podia ser manipulado era extremamente sofisticada e moderna.

Logo depois de estabelecer o acampamento em Tora Bora, Bin Laden concordou em receber um visitante chamado Khaled Sheikh Mohammed. Osama o conhecera ligeiramente durante a jihad soviética, quando Mohammed trabalhou como secretário de Sayyaf, seu antigo patrocinador, e também para Abdullah Azzam. Um fato bem mais importante: Khaled Sheikh Mohammed era tio de Ramzi Yousef, autor do ataque a bomba contra o World Trade Center em 1993. Agora Yousef estava preso, e seu tio, foragido.

Com excessão do ódio aos Estados Unidos, Khaled Sheikh Mohammed e Osama Bin Laden quase nada tinham em comum. Mohammed era baixo e atarracado, devoto m,as com pouca formação religiosa, ator e brincalhão, beberrão e mulherengo. Enquanto Bin Laden era provinciano e odiava viajar, especialmente para o Ocidente, Mohammed era um globe-trotter com fluência em vários idiomas, inclusive o inglês, aperfeiçoado enquanto estudava engenharia mecânica no Agricultural and Technical State University, uma faculdade predominantemente de negros em Greensboro, Carolina do Norte.

Em Tora Bora, Mohammed informou Bin Laden sobre sua vida desde a jihad anti-soviética. Inspirado pelo ataque de Ranzi Yousef ao World Trade Center, juntara-se ao seu sobrinho durante um mês nas Filipinas, em 1994. eles trataram de um plano extraordinário de detonar bombas em doze jatos americanos sobre o Pacífico. Chamaram-no de Operação Bojinka – uma palavra absurda que Mohammed aprendera ao combater no Afeganistão. Ramzi Yousef, o exímio criador de bombas, aperfeiçoara um pequeno dispositivo de nitroglicerina indetectável pela segurança dos aeroportos. Testou-o num vôo de Manila a Tóquio. Yousef desembarcou em Cebu, uma cidade nas ilhas centrais do arquipélago das Filipinas. O passageiro que ficou em sua poltrona foi Haruki Ikegami, um engenheiro japonês de 24 anos. Duas horas depois, a bomba sob o assento de Ikegami detonou, destrocando-o e quase derrubando a aeronave. O ataque que Yousef e Mohammed vinham planejando levaria o tráfego aéreo internacional à paralisia completa.

Embora alegue não ter conhecido Yousef pessoalmente, Bin Laden enviara um mensageiro a Manila para pedir a ele que lhe fizesse o favor de assassinar o presidente Bill Clinton quando este viesse a Manila, em novembro de 1994. Yousef e seus companheiros mapearam o trajeto do presidente e enviaram a Bin Laden diagramas e esboços dos pontos de ataque possíveis. Mas Yousef acabou concluindo que a segurança seria forte demais. Pensaram então em matar o papa João Paulo II quando ele visitasse a cidade, no mês seguinte – chegando ao ponto de conseguir batinas -, porém esse plano também não deu em nada. A polícia de Manila tomou conhecimento do grupo depois que substâncias químicas em seu apartamento pegaram fogo; Yousef fugiu, deixando para trás o computador com todos os planos criptografados num disco rígido.

Mas os planos estavam ainda na cabeça de Khaled Sheikh Mohammed. Ele procurou Bin Laden com uma espécie de esquemas de ataques futuros contra os Estados Unidos, inclusive um que exigia o treinamento de pilotos para lançar aviões contra prédios. Bin Laden mostrou-se evasivo, embora tenha pedido formalmente a Mohammed que aderisse à Al-Qaeda e trouxesse sua família ao Afeganistão. Mohammed educadamente recusou a oferta. Mas a semente do 11 de setembro havia sido plantada.

 

Camaradas,

Mais um trecho de livro. Desta vez trata-se do livro “O Vulto das Torres” de Lawrence Wrght, editado no Brasil pela Companhia das Letras. Recomendo muito!

 

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