A Estrela da Morte sobre Hiroshima

 

Por Charles Pellegrino

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A ESTRELA DA MORTE

SE MARY MARY SHELLEY ou Edgar Allan Poe tivessem nascido na segunda metade do
século XX, nunca precisariam ter inventado o gênero terror.

Para os primeiros cientistas japoneses que se aventuraram nos hipocentros ainda radioativos de Hiroshima e Nagasaki — tentando entender o que ocorrera — , as mortes mais espantosas foram as mais rápidas. Em uma ponte situada no centro de Hiroshima, um homem ainda podia ser visto puxando um cavalo, embora tivesse cessado completamente de existir. Seus passos, os passos do cavalo, e os últimos passos das pessoas que estavam atravessando a ponte com ele em direção ao centro da cidade foram preservados na superfície da estrada, que ficou instantaneamente alvejada, como por obra de um novo método acidental de fotografia com flash.

Descendo um pouco mais o rio, a quase 140 passos do centro exato da detonação, e ainda
dentro da mesma fração de segundo, mulheres sentadas nos degraus de pedra da entrada do Banco Sumitomo, esperando as portas se abrirem, evaporaram quando, em vez destas, o céu se abriu. Aqueles que não sobreviveram à primeira metade desse segundo de contato com urna arma nuclear, estavam vivos em um momento, nos degraus do banco ou nas ruas e nas pontes — ansiando pela vitória do Japão ou aguardando a derrota —, desejando o retorno dos entes queridos levados para a guerra, ou cumprindo luto pelos já perdidos; pensando em ter mais comida para dar a seus filhos; ou tendo sonhos bem menores, ou nenhum. E então, ao enfrentar o clarão, foram convertidos em gás e carbono desidratado; e suas mentes e corpos se dissolveram, corno se tivessem sido apenas o sonho de algo estranho à experiência humana, que despertasse de repente. Ainda assim, a sombra dessas pessoas permaneceu atrás do carbono disperso pela explosão, impressa nas calçadas causticantes, sobre os degraus de granito do banco — testemunho de que um dia elas viveram e respiraram.

Naquele sexto dia de agosto de 1945, ninguém que tivesse concebido, projetado ou montado a bomba de Hiroshima sabia de onde tinham vindo os núcleos de urânio, ou o que a ciência tinha conseguido realizar. Nem Oppenheimer, nem Urey, nem Alvarez, ou mesmo Einstein teriam acreditado ressuscitar algo do passado remoto, de um tempo e lugar jamais encontrados pelo pensamento humano. Cada um dos átomos de urânio-235 no núcleo da bomba tinha sido forjado havia mais de 4,6 bilhões de anos, no coração das supernovas. O núcleo foi feito com a poeira das estrelas que haviam vivido e morrido muito antes que as mais antigas montanhas da Lua tivessem nascido. Extraído e refinado para se obter mais de 83% de pureza, agrupado com precisão sob a geometria correta, o vestígio primordial da Criação foi forçado a ecoar, depois de anos em repouso, o último grito de urna estrela ao implodir. Em termos quânticos básicos, o que aconteceu sobre Hiroshima naquela manhã — e três dias depois em Nagasaki, em outro caldeirão, de plutônio, carregado de subprodutos de um reator de urânio — significou as breves reencarnações de sóis distantes.

Nenhum dos homens que conduziram essa estranha alquimia havia entendido que o carbono que fluía em suas veias era, como o urânio, poeira de estrelas. Nem sabiam eles que os núcleos de carbono e urânio pudessem ocultar algo muito menor que o diâmetro de um próton. De fato, Einstein e Oppenheimer negaram-se a reconhecer que tais mundos quânticos existissem. Eles não sabiam, naquela época, de que os nêutrons eram feitos, ou como, precisamente, fissuras no espaço-tempo — fissuras no próprio universo — permitiam que a matéria se transformasse em energia. Seu entendimento era tão primitivo que podia ter sido comparado à corrente de pensamento de um Neandertal descobrindo o napalm. De maneira similar, os cientistas nunca suspeitaram que as forças liberadas por eles criavam uma ponte entre seu dia e o dia da origem do universo, e associavam o mega-tempo ao tempo de viagem da luz através do diâmetro de um próton. Embora não soubessem quase nada sobre como funcionava esse eco do passado que tinham criado brevemente, esse quase nada era o suficiente.

INEVITAVELMENTE, ALGUÉM TERIA DE ESTAR DEBAIXO do Ponto Zero. Essa peculiar distinção foi concedida a urna viúva de 35 anos e a meia dúzia de monges. A senhora
Aoyama havia mandado seu filho Nenkai à escola meia hora antes do habitual — e, por essa razão, a história viria a reivindicar o garoto como o único sobrevivente do bairro. A casa dos Aoyama estava ligada de um lado a um templo* budista com o qual a família dividia e mantinha uma grande horta. Às 8h15, a senhora Aoyama provavelmente estava trabalhando na horta com seus vizinhos, como fazia todas as manhãs. Se assim foi, ninguém estava mais perto do real Ponto Zero, ou exposto mais abertamente, do que a senhora Aoyama e os monges.

Acima deles, a cúpula do Edifício de Ciências Industriais de Hiroshima apontava diretamente para o centro da detonação. A horta do templo onde a senhora Aoyama trabalhava era adjacente ao que seria conhecido pelas gerações futuras corno Cúpula da Paz. Durante aquela última fração de segundo antes do Momento Zero, a senhora Aoyama e os monges viviam o ápice da não existência instantânea, à beira da morte, antes que fosse possível perceber que estavam para morrer. No momento em que a bomba explodiu, antes que um globo de plasma pudesse descer até o chão, o milímetro mais alto do revestimento de metal da cúpula apanharia os raios da bomba e se liquefaria instantaneamente, transformando-se em vapor. Tijolos e concreto também estavam por ganhar um revestimento líquido radiante.

Ao contrário do homem que levava o cavalo pela vizinha ponte “T”, a senhora Aoyama não poderia deixar uma sombra permanente no chão. Desde o momento em que os raios
começaram a atravessar seus ossos, sua medula começaria a vibrar a mais de cinco vezes o ponto de ebulição da água. Os ossos ficariam instantaneamente incandescentes, e toda a sua pele tentaria, ao mesmo tempo, explodir e desgrudar-se do esqueleto, enquanto era forçada na direção do chão como se fosse um gás comprimido. Durante os primeiros três décimos de segundo que se seguiram à detonação da bomba, a maior parte do ferro seria separada do sangue da senhora Aoyama, como por refinaria atômica. Os primeiros milímetros do solo, ao se converterem em vidro derretido, seriam injetados com tão altas concentrações de ferro que, se a camada verde-marrom de vidro pudesse esfriar lentamente, esta teria sido oculta sob um manto de aço-carbono; mas um esfriamento lento e digno não ocorreria. Quando o som da explosão chegasse a seu filho Nenkai, a dois quilômetros dali, toda substância do corpo de sua mãe, incluindo o ferro do sangue e o cálcio que enriquecera o vidro, estaria subindo à estratosfera para se tornar parte das estranhas tempestades radioativas que perseguiriam Nenkai e outros sobreviventes.

Na parte sul da cidade, a quase quatro quadras depois da senhora Aoyama e dos monges,
Toshihiko Matsuda estava para deixar sua sombra no muro do jardim de sua mãe. Ele parecia ter se abaixado para apanhar um pedaço de fruta ou arrancar uma erva daninha. Nos milissegundos seguintes, o muro atrás de Toshihiko estaria impresso pelo clarão não somente com a sua sombra, mas também com as imagens fantasmas das plantas que o cercavam (e que ofereceriam à sua pele um pouco de proteção). Na impressão feita na parede, quando a bomba explodiu, podia se ver a sombra de uma folha recém-caída da videira, e que, embora estivesse em queda, nunca chegaria ao chão.

Das casas dos Aoyama e dos Matsuda até os barcos de pesca de camarão no porto, o
sistema nervoso do ser humano não era rápido o suficiente para registrar o quão depressa o alvorecer da morte atômica explodiu em sua direção naquela manhã de agosto. No início, tudo aconteceu em questão de nanossegundos. Dentro do núcleo da zona de reação, cerca de 550 gramas de urânio-235 começaram a entrar em fissão diante de forças compressivas como as de urna arma, que foram projetadas para iniciar a reação, mantendo-a brevemente coesa, e dominadas por forças que as afastavam. O urânio é três vezes mais pesado que o ouro no momento da compressão, mas cada grama desse metal prateado emissor de elétrons ocupava três vezes menos volume que o ouro. A parte ativa, operante da bomba era, desse modo, assustadoramente pequena, ocupando um terço do volume de uma bola de golfe. O volume total de urânio reativo media pouco mais do que duas colheres de chá rasas. Dentro desse volume de 550 gramas e duas colheres de chá, uma amostra de quase todos os elementos que
jamais existiram durante toda a existência do universo foi instantaneamente recriada, e muitos foram tão rapidamente destruídos.

Depois de apenas um centésimo de milionésimo de segundo, o núcleo começou a se expandir, e a reação de fissão, a decair. Durante esse intervalo de dez nanossegundos, a
primeira explosão de luz emergiu com tanta intensidade que mesmo as porções amarelas e verdes do espectro podiam ser vistas brilhando através do envoltório de aço da bomba como se fossem uma sacola de celofane transparente. Quinhentos e oitenta metros abaixo, nenhuma criatura conseguiria ver isso. Durante os primeiros dez nanossegundos, a luz do núcleo percorreu apenas três metros em todas as direções. As reações de fissão ocorreram em tempos tão curtos que ultrapassavam a velocidade da luz. Assim, para qualquer pessoa que estivesse a mais de três metros de distância, a bomba parecia estar dependurada e perfeitamente intacta sobre a cidade, embora o brilho da luz a atravessasse. Diretamente sob a bomba, a senhora Aoyama ainda estava viva e completamente intocada pelo clarão.

Um décimo de milionésimo de segundo mais tarde, uma esfera de raios gama, saindo do
núcleo à velocidade da luz, alcançou um raio de 33 metros, seguida por um jato secundário de nêutrons. Entre a bolha gama e a recém-formada bolha de nêutrons, elétrons eram arrancados de cada átomo de ar e acelerados em direção às paredes da esfera gama mais ampla. Uma bolha de plasma começou a se formar, produzindo um choque térmico mais quente que o núcleo do Sol e que era bilhões de vezes mais brilhante que a sua superfície.

Dentro dessa labareda atômica, raios X e raios gama eram repetidamente absorvidos e
espalhados, polarizados e reabsorvidos, a tal ponto que os raios podiam tanto se refletir de volta para o centro da bomba quanto para longe dele. Um resultado disso foi que quando a luz chegasse ao chão, as explosões de raios X e gama seriam acompanhadas de um efeito de dispersão aleatório de “brilho do céu”, pelo qual uma pessoa que estivesse protegida do clarão atrás de uma sólida parede de tijolos, por exemplo, poderia ser atravessada por raios que emanavam de todos os pontos da bússola.

Durante o primeiro milionésimo de segundo, a bolha de luz cresceu a um raio de trezentos metros — um pouco mais que seis quadras de diâmetro. Apesar de suas próprias dimensões expansivas terem reduzido e esfriado o limite exterior da esfera a apenas mil vezes o ponto de ebulição da água, a temperatura era de mais de trezentas vezes o número necessário para converter um corpo humano em ,Névoa carbonizada e ossos em brasas. Durante esse mesmo primeiro milionésimo de segundo, e apesar de tudo o que estava acontecendo, a luz da bomba ainda não tinha percorrido uma distância suficiente para chegar à cidade. Se Toshihiko Matsuda ou a senhora Aoyama estivessem por acaso olhando para o ponto da explosão precisamente naquele momento, e se o sistema nervoso fosse dotado da capacidade de registrar um milionésimo de segundo, a bolha de seis quadras de extensão lhes pareceria uma ponta de lança no céu que ainda não tivesse sido detonada.

Sobre Matsuda e Aoyama, não apenas despercebida, mas invisível, a onda de nêutrons da bomba, apesar de se locomover a uma fração substancial da velocidade da luz, veio somente depois do clarão e da explosão de raios gama. Do lugar onde a bomba tinha estado — de seus polos magnéticos —, núcleos de tungstênio e de ferro dispararam na frente dos nêutrons, em um efeito de dispersão, não mais se comportando como se tivessem feito parte da estrutura. Atrás deles, o jato de nêutrons (em um grau menor, prótons e antiprótons de curta duração) agora se tornava uma fonte secundária significativa de radiação imediata e mortal.

Depois de um décimo de milésimo de segundo, o ar começou a absorver a explosão e a
reagir. A atmosfera no entorno tornou-se um golfo de vácuo quase perfeito em expansão,
destacando-se do lugar onde a bomba estava e formando uma caverna de plasma. Ao longo das paredes dessa caverna, o jato de nêutrons gerou uma segunda grande explosão de raios gama. Nesse momento, o clarão inicial já tinha percorrido um raio de trinta quilômetros, e a luz começava a ser registrada pelo rápido sistema nervoso das tamarutacas nas profundezas do porto de Hiroshima. Sob o hipocentro, o sangue no cérebro da senhora Aoyama já começava a vibrar, na iminência de virar vapor. O que ela experimentou foi uma das mortes mais rápidas de toda a história humana. Antes que algum nervo começasse a perceber a dor, ela e seus nervos deixaram de existir. A muitas quadras dali, Toshihiko Matsuda e as plantas que o circundavam viveriam mais alguns instantes. Em um raio de dez quadras, carpas e tartarugas nadando perto da superfície dos lagos do castelo de Hiroshima ainda estariam vivas no dia seguinte — apesar de, antes mesmo de poder se assustar e procurar águas mais profundas, ficarem cegas, com escamas e cascos a queimar.

As taxas de reação estavam se desacelerando — de intervalos quânticos de tempo ao
domínio do tempo biológico. Durante os três milissegundos seguintes, tempo em que uma mosca poderia bater as asas apenas urna vez e começar a alterar sua rota, a bola de fogo começou a se formar. Inicialmente, expandiu-se a cem vezes a velocidade do som, mas, quando a sua superfície inferior se aproximou da Cúpula de Hiroshima e do teto da casa dos Matsuda, 97 milissegundos e 31 batidas de asas depois, a velocidade diminuiu para aproximadamente cinquenta avos da inicial. Perto da periferia da bola de fogo, novos átomos, de vida muito curta, gerados pela fissão, passavam por uma rápida decomposição, emitindo uma terceira explosão de raios gama. Mesmo com toda sua potencialidade de causar danos, esse terceiro raio da morte ficou diminuto em comparação ao raio de calor que o precedeu e à tempestade que se formava a partir de uma onda de choque e raios.

Por toda Hiroshima, um décimo de segundo depois da detonação, cabos de telefonia e tecidos começaram a emitir colunas verticais de vapor negro, mas mesmo assim os edifícios da cidade continuaram de pé. Se comparada ao seu início, a onda de choque agora se movia vagarosamente. A mais lenta das três maiores bolhas atômicas tocou a terra a uma velocidade de apenas duas vezes a do som, só um pouco mais rápida que os reflexos humanos.

O ser humano necessita de um trinta avos de segundo para registrar um movimento; um
décimo de segundo para se esquivar. Os caminhos neurais das moscas se acionavam e se
recompunham, esquadrinhavam e reagiam, quase cinquenta vezes mais rapidamente que os de um cérebro humano. Da perspectiva de uma mosca, todos os humanos ficaram imóveis, em um universo mais lento — como o tempo das lesmas de jardim e dos caracóis percebido pelos humanos.

Por quilômetros em todas as direções, as moscas registravam a pulsação inicial de luz menos de cinco milissegundos depois de esta tocar o chão, e eram capazes de alterar a rota e procurar uma sombra centenas de milissegundos depois, durante as trinta batidas seguintes de asas — durante uma piscada de olho ou o tempo de uma reação humana. Após trezentos milissegundos (ou três décimos de segundo), a bola de fogo tinha chegado a seu potencial máximo para infligir queimaduras à distância; mas, àquela altura, quase todas as moscas de Hiroshima já estavam se abrigando nas sombras das paredes mais próximas, ou debaixo de folhas mais próximas, ou atrás das pessoas mais próximas. O efeito de “brilho do céu” dos raios gama quase não lhes importava, porque os sistemas de reparação do DNA de uma mosca são quase duzentas vezes mais eficientes que os de um homem.

Em três décimos de segundo, a bomba já não existia mais. Tudo o que se seguiu — enquanto os eventos deixavam o tempo dos projéteis e o tempo das moscas para intervalos de tempo que os humanos conhecem melhor — significou nada mais que tremores secundários.

Akiko Takakura e sua amiga Asami — embora mais perto da bomba que Toshihiko Matsuda e seu jardim de sombras — estavam nas profundezas da concha de granito e concreto do Banco Sumitomo, quando as explosões de raios gama e infravermelho começaram. Com exceção de alguns feixes aleatórios do “brilho do céu” que entravam pelas janelas nas laterais do prédio, as duas mulheres estavam mais ou menos encasuladas contra os raios da morte.

Akiko sempre se lembraria de como o relógio na galeria principal parou às 8h15, o mesmo horário em que o grande relógio no topo da torre da Universidade de Hiroshima havia parado três dias antes. Como o esforço de guerra tinha esgotado quase toda a mão de obra e todas as partes de metal sobressalentes, faltavam os recursos para consertar o principal relógio da cidade. Nos três dias anteriores, Akiko e Asami tinham comentado, de brincadeira, como o relógio parado da torre, congelado como se fosse sempre 8h15, ressaltava a futilidade de tudo. Por décadas futuras, a piada estaria revestida de um manto de profecia, porque, no fim das contas, consertar o relógio ou deixá-lo quebrado não teria feito nenhuma diferença. Pararia novamente às 8h15, como todos os outros relógios em Hiroshima.

Akiko e Asami estavam a apenas 250 metros do hipocentro que se formou com uma altura de mais de duas vezes esse número, o que colocou o ângulo de aproximação da bolha de choque quase diretamente sobre a cabeça delas. Mulheres sentadas nos degraus do lado de fora do banco estavam simultaneamente pegando fogo e carbonizando quando, a aproximadamente um décimo de segundo antes que seus nervos começassem a transmitir dor, a onda de choque interveio. Como a frente de choque desceu do alto, postes telefônicos, árvores e suportes verticais do banco resistiram e foram em grande parte ignorados pelas forças de compressão. Árvores, postes e vigas de aço de sustentação vertical se comportavam como narizes e asas de bombas-foguete cortando o ar supersônico. Akiko e sua amiga foram poupadas em grande parte por um efeito que necessitava funcionar apenas durante os primeiros dois ou três milissegundos da passagem da frente de choque, para que as protegesse durante o total dos cinco segundos da explosão e turbulência que se seguiram. O prédio literalmente cavou um buraco na frente da onda que avançava, formando um casulo antichoque para as duas amigas (e
para um gerente do banco que estava no subsolo), enquanto uma martelada de ar retumbava do lado de fora, propagando-se para longe delas.

Akiko sentiu como se os seus pulmões estivessem sendo esmagados por uma onda de ar
denso. Asami foi golpeada e arremessada para longe, sendo atingida nas costas pelo revestimento decorativo de urna parede que fora comprimida como os foles de um acordeão e que depois irrompeu em pequenos estilhaços de granito; mas as duas amigas foram protegidas por uma das peculiaridades mais estranhas da natureza. O efeito de casulo antichoque acompanhou todas as principais explosões e a tendência era de não ocorrer onde qualquer pessoa que agisse com base no senso comum esperava que a sobrevivência fosse remotamente possível. Às vezes, o lugar mais seguro para se estar era o mais perto do coração da explosão.

Como Akiko e Asami, Shigeyoshi Morimoto recebeu uma rápida e intensiva educação sobre a física de casulos antichoque. Morimoto era um dos quatro campeões fabricantes de pipas do Japão, e, por isso, ele e outros três tinham sido recrutados e levados até Hiroshima para projetar pipas de grandes altitudes destinadas à observação de comboios de navios. Às 8h15 da manhã de 6 de agosto, Morimoto não estava muito mais longe da bomba que Akiko Takakura. Como Akiko, ele não se lembrava de nenhum som acompanhando o clarão. A mansão de vários andares, reforçada por telhas, tremeu e se achatou ao redor do senhor Morimoto e de seus dois primos; mas a combinação de telhas e três camadas de grossas vigas de madeira acima deles atenuou as explosões de raios gama para pelo menos um décimo. Os cômodos da mansão, cheios de estantes de livros do chão ao teto, atenuaram ainda mais os raios e absorveram as ondas de compressão. De certa forma, os três primos foram protegidos pela cultura. A compressão dos três andares superiores ocorreu como se o edifício tivesse sido projetado com áreas salva-vidas de compressão de madeira e papel, encasulando a família Morimoto tão suavemente que esta sobreviveu no centro de Hiroshima com apenas alguns machucados leves.

A duas vezes o raio de Morimoto e Akiko, quase seis quadras ao norte do hipocentro, o
soldado raso Shigeru Shimoyama acabava de pisar em um depósito de concreto reforçado — onde, ele contaria a historiadores, foi “abrigado do clarão, mas não da pancada”. A mão de um gigante vingativo parecia tê-lo atirado contra a parede dos fundos, e nesse mesmo instante o teto foi empurrado para baixo, e o chão, para cima. As paredes também foram puxadas para dentro, para o centro do depósito, e a parede traseira interrompeu o voo do soldado como uma luva de apanhador de beisebol. Do lado de fora, os companheiros de recrutamento de Shigeru morreram instantaneamente. Quando ele descobriu que a razão pela qual parecia estar suspenso a quase um metro do chão — seus ombros estavam pregados a urna viga de madeira transversal —, e quando um silêncio que nunca acabava o fez sentir-se o único homem vivo em Hiroshima, ele começou a suspeitar que todo mundo tinha conseguido escapar com mais sorte.

Um pouco além da distância de Shigeru ao hipocentro, à margem do cemitério do exército, as freiras de uma escola local para meninas extraíam óleo de canforeiras quando o céu pegou fogo. As árvores se despedaçaram e voaram para todos os lados em milhares de pedaços chamejantes. As lápides de granito perto dali ardiam em uma cor vermelho-cereja, como para anunciar a ressurreição dos soldados enterrados, antes de a onda de choque atirá-las de ponta-cabeça, morro Kyobashi abaixo. Dias depois, o capitão Mitsou Fuchida chegaria ao centro da cidade procurando pelas freiras e suas alunas. Ao encontrar as pedras de granito e descobrir que as camadas mais superficiais tinham fervido e se transformado em areia, ele entenderia que não havia sentido em procurar seus amigos. As pedras lhe diriam tudo o que precisasse saber.

Na vizinhança da ponte Misasa, a quase dois quilômetros do hipocentro, rio acima, a família de Sumiko Kirihara estava se reunindo para um retrato quando veio o clarão. Sumiko tinha 14 anos; ela tinha visto primos que mal haviam completado 16 anos ser convocados para a guerra no mar, só para aparecer nas listas de desaparecidos e provavelmente mortos duas semanas depois. Agora seu irmão de 16 anos tinha sido convocado para trabalhar em um arsenal, então a família se reuniu, vinda de cidades distantes, para o que acreditava ser uma última reunião. Ingressando na zona da morte, eles tinham marcado com o fotógrafo para que ele chegasse às 8h, a fim de posarem em um jardim ensolarado ao ar livre; mas por algum motivo ele estava atrasado. E então, em uma região onde qualquer pessoa circulando ao ar livre e exposta ao clarão da bomba receberia queimaduras mortais apenas ao toque da luz, uma mudança inesperada levou a família até as sombras protetoras do teto de madeira e terracota de um salão de chá. Quando o raio de calor veio da direção da Cúpula e do Banco Sumitomo, a família Kirihara estava a salvo dentro do salão, contando lembranças, tocando música e
bebericando xícaras de chá racionado pela guerra, tão diluído que poderia ser descrito como água morna com pedaços secos e reutilizados de folhas de chá.

Do lado de fora, o jardim desapareceu num clarão fervente. Sumiko percebeu o clarão como uma radiação azul-pálida que vinha de todos os lados e parecia muito quente, mesmo dentro do salão. No mesmo instante, ela ouviu Um crepitar eletrônico, tão alto que pensou que fosse furar seus tímpanos. A casa de dois andares de seus pais — junto à casa de um vizinho — passou pela onda de choque quase sem nenhum dano, na região em que os únicos edifícios que ainda estavam de pé eram um hospital feito de aço e concreto e uma loja de departamentos de blocos de alvenaria, em chamas. A senhora Sasaki saiu de casa, que foi encasulada contra o choque de maneira similar, com sua filha Sadako, de apenas 2 anos, nos braços. Como a família Kirihara, quase toda a família Sasaki parecia ter sobrevivido ao pika-don — ou “estrondo do clarão” — sem ferimento algum. Anos mais tarde, a pequena Sadako insistiria que, embora tivesse apenas 2 anos na época, ela ainda podia se lembrar brilho de mil sóis explodindo pelas janelas e de um calor que espetava seus olhos como agulhas. O falso pôr do sol virou sua memória mais antiga.

O punho de urânio foi caprichoso, matando alguns e poupando outros, mesmo quando as
pessoas estavam à vista umas das outras. A senhora Teruko Kono não tinha mandado seu filho à escola naquele dia. Quando veio o golpe, ela o observava brincar em uma balsa, da janela do segundo andar de casa, à margem do rio. A casa ficava dentro da zona de Sadako, a menos de dois quilômetros do hipocentro. A senhora Kono foi escudada contra o raio de calor, mas o garoto foi completamente exposto. Ela o viu ser transformado em um relâmpago branco e pálido e emitir uma coluna de fumaça negra para o alto — antes que a casa fosse inclinada, levantada no ar e depois atirada ao rio, praticamente em cima de seu filho.

Na margem desse mesmo rio, à mesma distância e à vista da Cúpula de Hiroshima, Nobuo Tetsutani aproveitava um calmo descanso às 8h14 — momento que seria marcado a fogo em sua memória pela estranha circunstância de que tudo o que ele amava estava lá em um momento e, em seguida, havia desaparecido.

O ar estava agradável, com muitos sons de cigarras e grilos esfregando suas patas, zumbido de moscas-das-flores e a risada de Shin, de 3 anos, e seu amiguinho Kimi, enquanto andavam no que Nobuo acreditava ser o último triciclo em Hiroshima que escapara de ser derretido para a fabricação de envoltórios feitos de aço e cápsulas de artilharia. Nobuo soltou uma risada e, nos trezentos milissegundos seguintes, ele foi poupado, mas as crianças não.

A tinta vermelho-escura do triciclo atraiu os raios brilhantes e os apanhou, fazendo as
camadas mais superficiais do aço escamarem um dos lados, misturando-se explosivamente com a tinta e pegando fogo como se fossem o recheio de limalha de ferro de uma vela de aniversário. O cabelo negro das crianças apanhou os raios com igual eficiência, durante o meio segundo antes de seu mundo se transformar em escombros profundos e carvões em brasa. Em uma cidade destinada a ser reconstruída sobre as cinzas dos “desaparecidos”, quarenta anos se passariam antes que Shin e Kimi fossem finalmente desenterrados. Seus pequenos ossos brancos seriam encontrados de mãos dadas, perto de um cano causticante, que, como se descobriu depois, era o guidão do triciclo de Shin.

Alguns pais relembraram detalhes das premonições dos filhos que pareciam não querer ir à escola naquela manhã.

Etsuko Kuramoto estava na quinta série e já havia ficado em casa três dias com uma dor de estômago recorrente. Ela não queria ir à escola de novo — insistia em que algo estava por acontecer e que não queria que sua mãe ficasse só.

“Bem, então”, disse a mãe de Etsuko, “estaremos juntas quando morrermos.” Ela ria ao dizer isso, e, quando decretara a lei de que Etsuko iria à escola mesmo em caso de dilúvio
universal, a criança tinha insistido com a mãe que a deixasse usar sua melhor roupa naquela manhã. Quando Sumi Kuramoto viu a filha pela última vez, sua sagrada, adorada filha caminhava em direção à Escola Primária Nacional, rumo ao hipocentro, com sua “melhor roupa de domingo”, e chorava.

Outro estudante da quinta série foi mais direto em relação a seus medos.
“Hiroshima vai ser totalmente destruída hoje”, disse Hiroshi Mori a sua mãe.

Yoshiko não podia imaginar onde a criança tinha escutado tal horror. Ela o advertiu para que não falasse essas palavras novamente, e ordenou que fosse à escola. E antes que fosse até o edifício cujas vigas de aço seriam, momentos depois, desprovidas da cobertura de metal e se curvariam como folhas ao vento, o garoto disse à mãe que se cuidasse e pediu que não colocasse comida em sua mochila, porque ele não precisaria de almoço naquele dia.

Em outra escola da vizinhança, em um raio de dois quilômetros, uma professora chamada Arai recebeu uma lição inesquecível sobre os efeitos diferenciais de superfícies negras e brancas na absorção da luz. Quando veio o clarão, ela estava sozinha em sua classe, porque havia decidido dar mais alguns minutos para as crianças brincarem no pátio. Arai estava pendurando os melhores exemplos de caligrafia dos alunos em uma janela que dava para o hipocentro. Uma garotinha, executando sua delicada caligrafia em nanquim, tinha pintado o nome de sua professora em urna folha branca de papel-arroz. O clarão foi tão rápido que Arai pensou que uma bomba de quase quinhentos quilos tivesse caído bem ao lado ela. Seguindo seu treinamento contra bombardeios aéreos, ela se agachou imediatamente para se proteger, esperando somente um “rápido desaparecimento”, advindo de uma bomba cheia de dinamite e cargas de fósforo lançada tão perto dela. Ficou perplexa, então, quando a luz diminuiu e o estrondo que esperava não veio pelo que pareceram vários longos segundos. Estava quase levantando a cabeça para dar uma olhada do lado de fora quando a janela explodiu para dentro da classe e milhares de pedaços de vidro voaram sobre suas costas, sem lhe causar dano.

QUANDO ARAI SE LEVANTOU NOVAMENTE, ela observou uma grande nuvem vulcânica cheia de vaga-lumes que mudavam de cor: de dourado a violeta e depois para uma tonalidade brilhante de verde, mais deslumbrante que qualquer esmeralda que ela pudesse imaginar. Quando os vaga-lumes desapareceram e uma mosca pousou num corte em seu antebraço, ela tornou-se consciente de duas realidades: as crianças não estavam mais lá fora. Era como se alguma coisa as tivesse silenciosamente removido, deixando pilhas de trapos ardentes em seu lugar. Sua segunda constatação foi a de que seus braços, seu rosto, e tudo o mais que não tivesse sido protegido detrás dos papéis na janela pareciam muito queimados pelo sol.

Em sua mão, Arai ainda tinha a folha de papel-arroz, mas esta havia se transformado
dramaticamente. Os caracteres japoneses, em preto, tinham absorvido a luz, queimado
instantaneamente e desaparecido, enquanto o papel branco ao seu redor refletira a luz de volta para onde tinha vindo e sobrevivera mais ou menos intacto. Quando o raio de calor queimou as pinceladas, apenas uma fração do poder da bomba tinha sido usada e começava a desaparecer. Uma fina folha de papel tinha protegido os olhos da professora, salvando-a da cegueira, mas mesmo uma fração já definhante da fúria não consumida da bomba era significante. Sua luz ardeu através das letras que faltavam como um jato de tinta passando por um estêncil. A luz atingiu o rosto de Arai com a força equivalente a um banho de sol de quatro ou cinco dias de verão, marcando permanentemente na pele a caligrafia de uma criança morta. Tudo isso aconteceu antes que Arai pudesse começar a se agachar — em quatro décimos de segundo.

Por toda Hiroshima, paredes e outras estruturas verticais preservaram as sombras de pessoas e objetos. Cada uma apontava na direção do clarão. A criação de tais imagens era similar à marca pálida deixada por um relógio de pulso depois de um dia de sol na praia. Este poste de telefonia, localizado a 1.300 metros do hipocentro, depois de queimado pelo clarão, gravou a marca de uma mamoneira que havia sido queimada e depois explodida. Mais tarde, novos brotos emergiram abaixo da sombra no poste. A nitidez das imagens das folhas indica que a sombra foi impressa um segundo ou dois antes da chegada da onda explosiva. (Patricia Wynne)

A PERCEPÇÃO DO “CLARÃO-ESTRONDO” parecia mudar dependendo de onde a pessoa
estivesse. Para Akiko Takakura, que estava envolta por um casulo antichoque sob a bomba, tudo começou com um clarão branco em silêncio absoluto. já a um quilômetro dali, Yoshiko Mori viu um clarão azul acompanhado quase instantaneamente por um barulho forte. A quase dois quilômetros, a mãe de Sadako Sasaki recordou o clarão como amarelo, enquanto a vizinha Sumiko tinha certeza de que a bomba emitira um clarão azul. À mesma distância, uma carteira chamada Hiroko Fukada, encasulada contra o choque, lembrou-se perfeitamente de que era amarelo. Yasaku Mikami, um dos três bombeiros que sobreviveram no período do Ground Zero, viu o céu emitir um raio azul a 1,9 quilômetro. A quatro quilômetros, um médico chamado Sawachika viu seu mundo tornar-se, de súbito, vermelho brilhante. Cinco quilômetros além, em um raio de sete quilômetros e no fundo de um vale protegido, o fotógrafo Seiso Yamada testemunhou todo o espectro de cores — “como arco-íris e magnésio brilhando sobre nossas cabeças. Como ondas feitas por uma pedra atirada em um lago, os arco-íris vieram em ondas” — e depois ele foi atirado ao chão pelo som de uma tremenda explosão.

Essas testemunhas mais próximas ao hipocentro pareciam nunca ter escutado o estrondo. A uma distância cada vez maior, o barulho foi se tornando mais perceptível e de estremecer os ossos. Estando a no máximo 1,9 quilômetro, Sumiko ouviu um forte zumbido eletrônico e estalidos; mas outros sobreviventes no mesmo raio, incluindo a família Sasaki, não ouviram nada. A três quilômetros, o engenheiro naval Tsutornu Yamaguchi estivera caminhando por uma plantação de batatas, e estava aproximando-se de uma mulher vestida com largas calças pretas, quando algo corno a lâmpada de magnésio de um fotógrafo se acendeu ante seus olhos. Reagindo instantaneamente, devido a seu treinamento contra ataques aéreos aprendido na marinha, o senhor Yamaguchi atirou-se ao chão e rolou até a vala de irrigação mais próxima, ao mesmo tempo em que levava as mãos à cabeça, cobrindo os olhos com as mãos, e tapando os ouvidos com os dedões para se proteger. Mesmo com as orelhas vedadas, o som que o atingiu era de romper os tímpanos.

O chão estremecia e estrondeava, estalava e tremia, arremessando Yamaguchi para fora da vala, a quase um metro no ar. Enquanto ele caía, a bola de fogo implodia sobre sua cabeça e começava a se erguer em uma velocidade espantosa, criando um vácuo que por um segundo ou dois ameaçava levantar o engenheiro acima da face da Terra; mas, em vez disso, apenas o fez levitar pelo que parecia um tempo impossivelmente longo, em um colchão de ar e poeira revolta, antes de finalmente soltá-lo diretamente em um dos sulcos lamacentos que o havia levantado. Ele se sentiu como uma folha no vento.

Quando Yamaguchi recobrou sua compostura e olhou para fora da vala, urna chuva de papéis chamejantes e farrapos de roupas ardentes estava caindo do céu, cintilando como milhares de lanternas diminutas e incensos nas árvores e nas folhas dos pés de batata. Parecia que todo o conteúdo de um prédio de escritórios tinha sido içado ao céu, depois rasgado, explodido, queimado e espalhado por todos os lados. Ele não conseguia ver o sol. O céu azul tinha sido apagado e a escuridão dominava, fazendo Yamaguchi sentir-se como se estivesse nas profundezas do oceano. Peças dos edifícios ainda estavam voando. “Eu podia ouvir o barulho dos telhados que voavam se estilhaçando no ar”, escreveu ele mais tarde —, “objetos caindo e o barulho de todas as formas de destruição. Era impossível identificar cada barulho ou sua causa.”

Sentado numa poça de lama, Yamaguchi subitamente percebeu que todo um lado de seu corpo ardia de calor. A pele exposta no braço direito estava literalmente torrada e adquirira um tom marrom–escuro, como o da pele de um frango que tivesse ficado tempo demais no forno. Mesmo naquele momento, antes de saber qualquer coisa sobre bombas atômicas, o engenheiro começou a suspeitar de algum tipo de raio de calor; e percebeu que sua camisa branca e suas calças claras o tinham poupado de maiores ferimentos. A mulher que usava as calças pretas havia corrido para o centro do campo. Lá, de pé e com a vestimenta equivalente a uma cobertura de tinta negra, ela expôs seu corpo a toda a fúria do clarão. Havia desaparecido.

Quando o senhor Yamaguchi olhou para o alto, viu um B-29 solitário, rumando para o mar, para alguma base aérea escondida não muito longe dali. Ele percebeu que o bombardeio poderia voltar logo. E foi então que todo o sofrimento causado pela queimação de seu corpo deu lugar à imagem de sua mulher e seu filho sozinhos em casa. Ele pensou em uma forma para encontrar um trem ou automóvel que estivesse funcionando, ou um cavalo que ainda estivesse vivo, e voltar para sua casa em Nagasaki, não importando como.

Isao Kita estava em uma montanha quando o céu pegou fogo. Ele era o principal meteorologista militar do distrito e continuou a registrar e observar em seu posto mesmo depois que uma sensação inexplicável de desidratação e náusea tomou conta dele. Quanto mais perto do centro da tempestade, menos as pessoas podiam ver o que realmente acontecia à sua volta. A uma distância de três quilômetros, o senhor Yamaguchi entendeu de imediato que era testemunha de um dispositivo de alta energia, cujo efeito primário era um choque de luz cauterizante. Mais próximos do hipocentro, tudo o que os familiares de Shin e Sadako podiam ver eram ruínas, camadas de poeira levadas pelo vento e crescentes mares de chamas.

Da estação meteorológica, localizada em um ponto bem alto de Hiroshima, a mais de meio quilômetro além de onde estava o senhor Yamaguchi, e fora do raio onde ocorreram as queimaduras de primeiro grau, o senhor Kita tinha uma visão privilegiada. Ele estava olhando para o norte da cidade, e os ventos seguiam seu curso normalmente — vinham por detrás dele. Nas bacias do rio, o clarão foi parcialmente obscurecido pelas brilhantes nuvens brancas que se formaram ao redor do hipocentro. Pareciam os anéis de Saturno, de um ponto de vista um pouco mais baixo, mas essa camada nebulosa de anéis estava em movimento, ondulando pelo céu azul. Kita sempre se lembraria dela como uma visão incrivelmente colorida: “Era como se trepadeiras-elefante tivessem florescido no céu”. Então o ar em torno dele começou a estalar e a se expandir. Kita e toda a encosta da montanha pareciam ter mergulhado em um forno quente. Como Yamaguchi, ele percebeu imediatamente que algo incomum tinha explodido sobre a cidade, e parecia que uma onda de choque já estava vindo em sua direção.

Calculando rapidamente os segundos que haviam passado desde o clarão, Kita abaixou se para procurar abrigo e começou a contar. Dois segundos depois, um som que mais parecia um gemido chegou até ele, ficando mais forte e culminando num estrondoso ruído que fez a plataforma de observação girar e recuar. Em um momento, ele estava olhando diretamente para o chão, certo de que havia posicionado mãos e pés na direção certa para se proteger. No instante seguinte, ele lançou o olhar para onde o Sol e as nuvens ardentes deveriam estar e os céus desabaram e lhe deram um soco na mandíbula. Parecia tão injusto quanto desorientador que o céu fosse pavimentado com concreto em vez de nuvens; mas Kita se recuperou rapidamente e percebeu que o choque devia tê-lo atirado no ar como se fosse uma moeda, a dois metros de altura, e depois o soltara com uma força de rachar os ossos sobre a plataforma da estação de meteorologia.

Kita tirou um pedaço de papel do bolso e rabiscou o número cinco, representando o número de segundos entre o clarão e o estrondo. A distância do centro do clarão, perto da ponte “T” e da Cúpula, revelou-lhe a velocidade da onda de choque: cerca de setecentos metros por segundo. Kita observou que a onda deveria estar viajando a duas vezes a velocidade do som.

Quando o jovem cientista se levantou e olhou para baixo, na direção dos estragos, só a palavra sobrenatural começava (“e apenas começava”) a descrever o que tinha acontecido.

Hiroshima não mais pertencia ao mundo de Kita. Depois dos primeiros cinco segundos, a
cidade inteira tinha se transformado em um lago de poeira amarelada em ebulição, deixando para trás uma crescente nuvem vermelha que ascendia a uma velocidade inacreditável. Quando Kita escreveu o número cinco, a nuvem já tinha subido mais de cinco quilômetros.

Quase cinco minutos depois, o lago de poeira amarela ficou manchado de colunas de fumaça preta como tinta; e, dois minutos mais tarde, a camada de ar sobre a poeira estava cheia de vermes. Um tempo depois, Kita percebeu que esses vermes eram jatos giratórios de fumaça e fogo — às vezes se afastando por caminhos separados e morrendo em seguida, outras vezes aglomerando-se em verdadeiros ciclones de chamas orbitados por massas de chapas soltas de metal e detritos irreconhecíveis.

O vento às costas de Kita parecia empurrar todos o vermes e torres de fumaça a noroeste, na direção da estação de Hiroshima e da ponte Misasa, dividindo a cidade em dia e noite. No lado em que estava Kita, a camada de poeira fervente assentou-se ou foi-se embora, e as ruínas embaixo se revelaram campos de pedaços de madeira e cacos de vidro, sobre os quais o sol ainda brilhava com força em uma manhã qualquer de verão — não fosse pelo que havia ocorrido. Tudo no sul e no leste parecia ter-se tornado um deserto de areia amarela. No norte, e rio acima, o mundo era uma escuridão que mesmo à distância podia ser sentida, interrompida apenas por raios e turbilhões incandescentes que às vezes alcançavam a altura de cinco a dez andares. Havia estranhas correntes de vento ascendentes e descendentes junto à fumaça; e com os binóculos Kita pôde divisar grandes camadas de granizo negro ou neve descendo violentamente de cima.
“Não…”, ele disse. “Ah, não.”

Ele podia ver pessoas ainda se mexendo na planície. Milhares de pessoas à vista, e
provavelmente outras milhares presas atrás de uma cortina negra.

 

Trecho do livro “O Último Trem de Hiroshima” de Charles Pellegrino.

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